rouxinol de Bernardim

Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo. O mundo e a sociedade sob o olhar atento e desassombrado de um cineasta do quotidiano, um iconoclasta moderno, sem peias, sem tabus, sem preconceitos.

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terça-feira, setembro 09, 2008

A TASCA DA CAROLINA

A TASCA DA CAROLINA
(CONTO)


A tasca da Carolina era famosa. Ali, o pica-no-chão feito na hora tinha um sabor divinal. Amélia tinha umas mãos da fada para a culinária. O frango assado parecia leitão da Mealhada. E a cabidela era um sonho...

O local era tosco, deselegante até. No entanto o ambiente era simpático, acolhedor. Os pescadores vinham jogar às cartas para ali. Às vezes a coisa azedava. Mas o Armando, com a sua proverbial bonomia, o seu ar bonacheirão, lá conseguia serenar os ânimos. Ele e a Amélia eram unha e carne. Adeptos ferrenhos do Varzim apesar de morarem em Vila do Conde.


Os poveiros, talvez por isso, gostavam de frequentar o local. Marroquinos e Polacos entendiam-se às mil maravilhas sobretudo na sueca. Se o vinho toldava os ânimos era sol de pouca dura...

__Em Vila do Conde há trinta freguesias, só isso faz com que seja superior à Póvoa__ exclamava o Zé das Medalhas, um antigo futebolista que tinha nas pernas as marcas (medalhas...) da sua impetuosidade nos campos de futebol.

__Nós, lá na Póvoa __replicava o ti Manel Sapo __temos a maior ETAR do mundo. É tão grande, tão grande que nem a vista a alcança!...

Referia-se a uma ETAR virtual que nunca chegou a ser construída apesar de lá ter sido colocada uma placa a indicar a intenção... ficara-se só pela intenção... Era a famosa ETAR de Aguçadoura, ETAR só de nome pois nunca existiu de facto, por isso a vista nunca a alcançaria... Era pura miragem feita pelos detentores do poder. O gato a fingir de lebre!

A conversa ia ganhando tons de bairrismo doentio, foros de certa animosidade; aí intervinha , de foram cordata e pacificadora, o Armando. Punha, na hora certa , um pouco de água na fervura:
__Marroquinos e Polacos são iguais perante Deus. Em Marrocos Deus chama-se Alá mas não é diferente do Deus Polaco. Somos todos irmãos. Eu pessoalmente gosto mais da Polónia apesar de ser marroquino!...

Intrigado e/ou ofendido o Zé das Medalhas, não gostou e não se conteve que não exclamasse:
__Armando, tu és um traidor! Por que defendes tu a Polónia?!!!

__É bem simples__retrucou Armando__ é que na Polónia pode-se beber à vontade enquanto que em Marrocos quem beber álcool arrisca-se a levar umas vergastadas na praça pública, é crime grave!

Todos sorriram e acharam piada . O ambiente amainou como era hábito após a intervenção apaziguadora do Armando. Contudo a toada argumentativa com sabor genuinamente bairrista ia subindo de tom, qual panela a ferver...

__O presidente dos polacos é um homem providencial! __ argumentava em defesa da sua «dama», ti Manel Sapo. __consta que já caminhou sobre o mar!

__Não acredito!__ atalhou Zé das Medalhas com ar sorridente__ Dizem que o próprio Jesus Cristo o fez mas foi sobre o mar Morto, estando gelado, portanto caminhou sobre uma camada de gelo e sal, daí o alegado milagre. O mar da Póvoa não tem essas características, logo, não acredito nisso!

__Não, não disse que foi no mar da Póvoa! __esclareceu Ti Manel Sapo__ ele caminha e muito bem é sobre o «Mar de Beiriz!"

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