rouxinol de Bernardim

Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo.

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quinta-feira, outubro 18, 2007

A Velha Canga - Conto Moderno


A Velha Canga, agora no museu municipal, reconheceu o emigrante e... falou-lhe!...
O Celestino Abrantes finalmente regressou à sua aldeia natal. Depois de uma autêntica odisseia por terras do Canadá, lá conseguiu uma reforma antecipada e regressou de vez. Na casa nova, com a esposa (a ainda fresca e risonha Noémia) vive com certa tranquilidade e desafogo. Tem o pequeno quintal/horta para se entreter e visita a casa da irmã (Leopoldina) com frequência.
De facto, os dias estão sempre preenchidos. E ainda bem.
Há tempos resolveu ir visitar o museu lá na sede do concelho. Pegou no carro, um velho Peugeot, já a precisar também de uma reforma (esta, não antecipada), meteu as sobrinhas (a Sofia e a Bárbara) lá dentro e toca de viajar.
Já dentro do museu algo lhe chamou a atenção. Pregada a uma parede (tal como Cristo na cruz...) estava uma velha canga, daquelas que se usavam antigamente para conduzir os bois a puxar os carros antigos. Era agora peça decorativa. Já sem serventia alguma era uma relíqua de um passado distante. O Celestino reparou bem nela e pareceu que ela lhe sorriu...
Em criança muitas vezes levara o carro de bois à feira com hortaliças e diversos materiais. Enfim foram tempos duros e difíceis aqueles. Enquanto meditava neste passado já longínquo notou que a canga sorria, um sorriso virtual, diria, mas mesmo assim um estranho sorriso...
aproximou-se mais e... ela falou assim:
_Então Celestino lembras-te de mim?
Ele nem queria acreditar. As meninas ficaram estupefactas e quiseram fugir! Ele, conteve-se, deu um beliscão na face, e disse:
__Foste tu que falaste, canga?
_Claro que fui! __ respondeu ela toda lampeira... __Tenho tantas saudades daqueles tempos. Tu ainda eras um menino com dentes de leite e já chamavas aquela junta de bois, o Safado e o Carrasco, ainda te lembras dos nomes?
Palavra puxa palavra e o diálogo aconteceu perante a incredulidade das meninas, as espantadas Bárbara e Sofia. Era um milagre autêntico. Nunca se ouvira falar de tal coisa!
__Sabes o que me levou a falar-te? __ disse a canga. __É que tu eras uma pessoa boa e correcta, sempre gostei muito de ti, tinha tantas saudades tuas. A saudade impeliu-me a dirigir-te a palavra. Deus deu-me esse dom.
_-Ainda bem que assim é. Olha, não te sentes aqui prisioneira, um simples objecto decorativo sem utilidade?
__Enganas-te. Eu agora reciclei-me...
__Como assim?! __ rematou, semi-estupefacto, o aparvalhado Celestino.
_Eu deixei o cachaço dos bois e passei para o das pessoas. Ando por aí. Espreita por essa janela e verás...
Celestino olhou e viu o dorso muito curvado do professor Epaminondas. De imediato inquiriu a canga:
__Então que andas lá a fazer?
__Olha Celestino, o professor Epaminondas tem uma carga muito pesada, um jugo muito violento. São alguns alunos que o maltratam, insultam, furam os pneus ao carro quando as notas são baixas, enfim, um pesadelo...Maldita canga ele tem, coitado...
Olhando através da vidraça apareceu o rosto de um senhora muito amiga da esposa, da Noémia. Era a D. Gertrudes, a cabeleireira. Parecia carregar um peso enorme. Antes que ele a interrogasse, a velha canga explicitou:
_Olha Celestino, essa, traz a canga matrimonial. O marido, o Chico Polícia, farta-se de lhe dar porrada, às vezes dizem que até usa o cassetete...
A procissão ainda ia no adro. Seguiu-se o farmacêutico, o Dr Peliteiro, com ar pesado, soturno, um enorme peso sobre os ombros. Ela disse então:
__ Coitado do farmacêutico, anda com os fiscais das finanças à perna o tempo todo, nem respira.
É a canga fiscal. Não vai longe. Farta-se de pagar impostos. Tem um ódio de morte ao ministro da saúde. Se pudesse esganava-o... Mas está podre de rico.
Ao longe já se divisava o ar tristonho e sisudo do senhor Evaristo, do mini-mercado (outrora mercearia). Será que também carregava alguma canga? Ela afiançou que sim.
__Sabes Celestino, o Evaristo casou com uma ninfomaníaca. Era essa que tu conheceste na escolinha, a Fernanda, sim a Nandinha das tranças pretas, essa mesma. Passa a vida a passear pelos cafés e à noite vai muito para os lados do Porto. Leva com ela uma peruca loira e diz que é ucraniana, intitula-se de Olga Kaslasvska. O resto estás a imaginar... Enfim um jugo matrimonial bem difícil este o do Evaristo...
O pobre Celestino estava que nem o chapéu de um pobre: todo amarrotado, com a alma esmurrada pelo efeito surpresa! Todo o povo andava subjugado à canga!
Ao longe vislumbrou a figura do presidente da câmara, o Dr Toucinho. Será que também ele terá uma canga, pensou lá com os seus espantados botões?
A canga, ela própria, esclareceu:
__ Coitado do Dr Toucinho anda sempre sob o jugo dos promotores imobiliários: não faz nada sem os consultar. E pior ainda: tem uma trela enorme...
__Uma trela?!
_Sim, sim, anda atrelado aos lóbis do betão!!!

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