rouxinol de Bernardim

Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo.

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quarta-feira, junho 11, 2008

Entrevista com Camões...


«Ó rouxinol, eu sou zarolho mas vejo melhor que alguns que se julgam luminárias do saber e da cultura...»
R. de B. - Meu caro Camões, que tem a dizer sobre este dia 10 de Junho?
Camões- Tenho-te a dizer que até me sinto mal com tal pompa. O país a atravessar uma crise, as pessoas em dificuldades, e tanta conversa de treta até me repugna...
RB.- Mas não achais bem?
Camões- Olha, eu fui tão mal tratado em vida, fui ostracizado, humilhado, tratado com se de um marginal anti-social. A igreja achava-me um libertino, não compreendia aquela minha referência aos deuses, o poder achava-me um pobre coitado. De facto eu não acreditava nos deuses, mas quis pô-los na minha obra por uma questão de moda literária, de grandiloquência, de respeito para com as civilizações que me precederam...
R.B- - Então para si Vénus e Marte são pura imaginação?
Camões_ Claro que sim, eu nunca acreditei neles. Dava jeito incluí-los por modismo literário puro e simples, nada mais. Já fui acusado de ser apologista do colonialismo português, logo após o 25 de Abril, e se calhar com alguma dose de razão. Eu nunca fui capaz de analisar em profundidade a vertente humana. Era um pouco maniqueísta: Jesus era o Bem, Mafoma era o Mal. Nunca tive uma visão muito profunda de conceitos como escravatura, exploração do homem pelo homem, enfim, era comum nessa época ser-se assim...
RB- Hoje sente-se modificado?
C- Hoje não escreveria um livro como «Os Lusíadas». Acharia pura perda de tempo. Talvez me aventurasse a fazer um filme erótico sobre «A ilha dos amores»...
RB - Então porquê?
C- Porque aquilo que quis dizer nesse tempo não me deixaram. Tive que cortar vários capítulos, corrigir cenas mais ousadas, retirar aquilo que achava mais digno de passar para a posteridade: a essência feminina no esplendor cultural, a sensualidade como mola propulsora da cultura e da civilização! A censura era feroz, medonha, castradora. Nem sei como consegui fazer passar aquele episódio da «Ilha dos amores», talvez tenha sido influência do Rei... que também era dado às musas...
RB - Hoje acha que teria problemas com a censura?
C- Talvez, anda para aí uma nova seita de detentores da moral e da verdade pura que mais parecem Torquemadas da nova vaga. Saramago sabe do que falo, pois já sentiu na própria pele a repressão censória...
RB- Mas estamos em tempo de liberdade, de respeito pelos Direitos Humanos, de respeito pela diferença...
C- Não me parece muito. Veja o que se passa no Zimbawe, na China (Tibete), em Myanmar, em Darfur. Cá em Portugal ponha os olhos na Madeira, em Gondomar, em Felgueiras... enfim, há pequenas bolsas totalitárias que envergonham o 25 de Abril...
R.B- Sois assim tão devoto do 25 de Abril?
C - Eu sou pela liberdade, pelo respeito pela diferença, sou adepto de uma visão plural em termos ideológicos, em termos culturais e religiosos. Mas sinceramente acho que uma nova inquisição está latente em muitos obstáculos que amiúde vão surgindo à livre expressão do pensamento. O islamismo, então, retrocedeu, aviltou-se, degenerou. Tenho o meu nome nalgumas ruas do norte de África, mas, sinceramente não me revejo no pensar dominante, nos teocracismos belicistas que por aí vão eclodindo...
R.B. Sois contra Marte?
C- Marte, o Marte puro do meu tempo já não existe. Agora há mercenários interessados em vender armamento servindo-se das religiões para atiçarem ódios repugnantes. Mercenários há-os na China e na América, em Moscovo ou em Berlim, há-os para todos os gostos e para todas as sensibilidades... Eu hoje seria um pacifista atento e esclarecido. Não sou pela guerra mas pela paz entre os povos. Hoje escreveria sobre a fraternidade universal com Cristo a idealizou, e não como a Opus Dei ou a Inquisição a transformaram. A Igreja deverá ser um fio condutor capaz de regenerar esta sociedade hipócrita. Mas sinceramente também ela está cheia de compromissos com os poderes que talvez esteja incapaz de cumprir essa missão. Talvez os pedagogos e os intelectuais livres possam substituír esse múnus benfazejo...
R.B.- Uma mensagemn para o mundo, quereis deixar?
Camões- Talvez o mundo não precise de mensagens. É preciso é começar a repensar esta hipocrisia reunida à volta da ONU e optar por outra coisa, mais interventiva, mais eficaz, mais capaz de erradicar os belicismos tolos que vão dando cabo da civilização actual...

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