rouxinol de Bernardim

Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo. O mundo e a sociedade sob o olhar atento e desassombrado de um cineasta do quotidiano, um iconoclasta moderno, sem peias, sem tabus, sem preconceitos.

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segunda-feira, julho 02, 2007

O "Cristão-novo"!

Nem sempre fui bem sucedido na vida. Tive problemas e acidentes de percurso que me marcaram. Nunca gostei de me vergar a prepotências nem aceitar de bom grado situações que me angustiavam ou causavam mal-estar em termos cívicos, em questões de ética.

Era tenente-miliciano e estava numa unidade militar no período ante-25 de Abril.
Ali pontificava um "senhor" oficial do quadro permanente chamado Matono Cóias. Era irascível, colérico, um tiranete de primeira. Nas reuniões de oficiais mostrava-se sempre muito afecto ao regime, citava um manual que lhe fora imposto nos Altos Estudos (estilo "sebenta universitária") dizendo cobras e lagartos da chamada "oposição interna" ao regime.

Um belo dia, estava eu de oficial de dia, fui chamado ao seu gabinete. De rompante disse-me:
- Quero falar com esse indivíduo que se infiltrou cá dentro. Pode ser um terrorista.
De facto houve um turista francês que entrara inadvertidamente na unidade, seguindo a orla costeira e não se apercebendo que era ali um aquartelamento militar. Não violara nenhum sinal de proibição pois não existia nenhum!
Revistei-o e só encontrei uma latas de sardinha em conserva e uns maços de tabaco "gaulloise".
-Esse indivíduo - disse eu com prudência - está prestes a saír da unidade, está junto à porta de armas. Não me parece que tenha cometido crime algum...

Telefonou de imediato. Mandou prender o dito cujo. E, coisa aberrante, mandou chamar a Pide/DGS!!!

Enfim, um tirano com a perfídia no grau mais elevado.

Noutra ocasião mandou-me chamar ao seu gabinete, disse-me que havia um soldado que se encontrava em regime de prisão mas que habitualmente ia trabalhar para as oficinas. Tinha um regime de certa liberdade pelo facto de trabalhar. Parece que se recusava agora ao trabalho. Mandou-me investigar.

Lá fui e trouxe a resposta do soldado. Não gostou. Proibiu-o de saír da prisão e de frequentar o bar conforme era hábito. Mandou-me exarar essa ordem no livro do oficial de dia para que todos cumprissem à risca essa instrução.

Entretanto surgiu o "25 de Abril"! O tal oficial do quadro permanente colocou-se em bicos de pés e disse que pertencia ao movimento, que assistiu a reuniões secretas, etc. Todos os oficiais milicianos lá foram ao "beija-mão" menos eu. Expliquei que era a favor de "25 de Abril" mas não me revia nesse oficial como um ideal de liberdade, mas sim era símbolo de opressão e de ditadura.

Foi uma fera para comigo. Um dia o capelão falou-lhe no caso do soldado que continuava proibido de ir ao bar. Negou categoricamnete ter dado a ordem. Eu não me contive e chamei-lhe metiroso na messe de oficiais. Ele incapaz de me dar réplica, mandou-me pôr em sentido e calar!

Tão caricato era que, aquando de um festival desportivo (Torneio de Futebol de Salão), sendo eu eleito o melhor marcador do Torneio (entre oficiais, sargentos e praças), ele comentou para o oficial da secção desportiva:
- Este gajo, o melhor marcador? Mas ele não joga puto!!!
Eu não sendo muito tecnicista era aplicado, corajoso, batalhador e com elevado sentido táctico. Muito activo, embora defesa, ia à frente e aplicava uns tiros certeiros que punham em estado de pânico os guarda-redes... a rematar de "bico" era uma "fera"... Ainda hoje faço uma "perninha" e dou bem conta do recado.

Era assim o ódio do "cristão novo". Muito embora tivesse tirado dois cursos de elevado grau de dificuldade (fui o primeiro num e o segundo, no outro, entre dezenas de oficias) nunca consegui caír nas suas boas graças. Não dava "graxa", não "lambia as botas", não "vergava", logo, era uma nulidade!!!

Em Abril continuam a proliferar injustiças mil, ninguém tenha dúvidas...

E "cristãos-novos" é o que há mais, nas autarquias, na justiça, nos empregos públicos... até nas paróquias...

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