rouxinol de Bernardim

Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo. O mundo e a sociedade sob o olhar atento e desassombrado de um cineasta do quotidiano, um iconoclasta moderno, sem peias, sem tabus, sem preconceitos.

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quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Premonição certeira

Um dia encontrei-me com o Dr Fernando Brochado Coelho (já falecido) à saída do tribunal de Póvoa de Varzim. Era ele presidente da comissão política do PSD (Porto) e eu vice-presidente de uma concelhia. Afirmou-me então: «Isto do futebol é uma galinhas dos ovos de ouro que começa a ter força demais. Vai ser muito difícil acabar com certa promiscuidade que se instala entre ele e o poder local.»

Já passou cerca de um quarto de século após esta judiciosa afirmação. Está aí em todo o seu esplendor o caos instalado. Aos poucos foi apodrecendo o tecido ético que cobria o corpo judicial, foi ganhando foros de autêntica epidemia e alastrou um pouco por todo o país. Uma espécie de gangrena ou até cancro. À sombra do proteccionismo ao futebol praticaram-se barbaridades sem conta, proferiram-se afirmações eivadas de demagogia e de oportunismo, houve quem criasse aura de taumaturgo com os seus actos «heróicos» em honra do dito cujo.

Há de facto uma teoria de que o futebol é intocável. Quem criticar alguma ilegalidade ou algum excesso de prodigalidade é logo acusado de falta de «amor à terra», de falta de «bairrismo». Os mecenas aparecem travestidos de autarcas-modelo, criando a ideia de que o futebol é a imagem da terra, é a «alma» da localidade. À sombra desta ideia tudo se pratica, até as maiores barbaridades, os projectos mais megalómanos. Quem criticar é logo apodado de «invejoso», «maledicente», quando não coisas bem piores...

Fernando Brochado Coelho está para o PSD como Salgueiro Maia para o 25 de Abril. A humildade em pessoa, o trabalho de sapa em prol do engrandecimento do partido e sem ambicionar mordomias, sem querer protagonismos de qualquer espécie. Um social-democrata na mais pura acepção do termo.

Hoje em dia vemos petulantes sem um resquício de cultura democrática arvorados em paladinos da liberdade, em sacrários de honra e bom nome, mas, lá dentro, apenas petulância, chicoespertismo, arrivismo puro e duro. Sá Carneiro tinha os seus caprichos mas era um democrata em termos de ideologia. Era um pensador com bagagem e um intelectual de elevado gabarito. Cavaco Silva muito embora mais limitado em termos culturais, intuiu muito do sentido de Estado que era timbre de Sá Carneiro, alcandorou-se a um patamar mais elevado em termos mediáticos por causa da sua longa permanência no poder, mas está uns côvados abaixo da craveira intelectual do Dr. Francisco Lumbralles de Sá Carneiro.

Brochado Coelho intuíu com argúcia o plano inclinado para onde ia descambando o futebol luso. Ele adivinhou este desfecho inglório em que casos como o Apito Dourado são apenas epifenómenos que emergem no charco da mediocridade. Parte visível do grande icebergue...

Há alguém que tem qualidades para ser um futuro líder do PSD com cabeça tronco e membros.
Não, não é o prof Marcelo Rebelo de Sousa (que tem mais pose de presidente da República...), e se mete a tocar demasiados instrumentos. Trata-se do Dr Pacheco Pereira. Ele tem da social-democracia um conceito austero e lúcido, ele possui aquele grau de intuição política que define os líderes autênticos, ele tem a coragem de ser impopular quando o superior interesse da nação assim o exige. E não cede à chantagem do polvo-futebol, não abdica dos princípios que enformam uma social-democracia feita para servir um povo inteiro e não uma clique de petulantes bem enfatuados e mais vocacionados para desmantelar o que chamam de Estado para erigir no seu lugar um bezerro de ouro simbolizando as virtualidades de uma iniciativa privada habituada a sacar do erário público a pretexto de o «emagrecer»...

Só tem um defeito. Uma mácula que lhe retira votos e dá um ar demodé: usa barba!

Mas que ninguém duvide: com ele ao leme o futebol iria para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Em vez de ser o sorvedouro número um do erário público, poderia ser um desporto de massas, sim, mas sem os excessos que ora se verificam. Há que corrigir esta loucura colectiva em que tantos foram engendrando, ao longo dos anos, para engordar meia-duzia de arrisvistas que se calhar nem um penalty sabem marcar...

Não há quem goste mais de futebol do que eu; mas do autêntico, do puro, do genuíno... o futebol do povo!

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