

Eça de Queiroz e Rafael Bordalo Pinheiro dois ícones dois portugueses que fazem falta para zurzir estes costumes fascizantes!Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo. O mundo e a sociedade sob o olhar atento e desassombrado de um cineasta do quotidiano, um iconoclasta moderno, sem peias, sem tabus, sem preconceitos.


Eça de Queiroz e Rafael Bordalo Pinheiro dois ícones dois portugueses que fazem falta para zurzir estes costumes fascizantes!
«O sexo é poder e manipulação"







Os diálogos que se seguem são pura ficção. Por favor, não confundir com a realidade. Esta, dizem os entendidos, é muito pior...
_ Meu caro coronel Dourado então que manda?
-Meu caro, mando-lhe saúde e boa disposição. Que o diabo seja surdo, mas a saúde é o que mais importa. Como vai a família, tudo bem?
-Felizmente bem, graças a Deus. O meu filho mais velho lá acabou a licenciatura, deu jeito aquele empurraozinho do meu coronel... Mandou aquela cadeira que faltava por fax e acabou o curso...
-O fax é muito democrático. Serve para todos. Desde o fax de Macau até ao fax cá do coronel, isto é trigo limpo farinha amparo!... Deus nos dê saudinha amigo Já Não Sinto... Olhe é para lhe dizer que foi nomeado para o tal grande encontro, com a gajada de Lisboa...
- Mas, eu não quero ser usado outra vez, sabe como é, dá nas vistas...
-Lembra-se daquilo do verão passado?!
-Claro que lembro, foi formidável! Pronto, esqueça o que disse, dê ordens patrão!
-Eu quero pelo menos o empate, ouviu! Use a estratágia M e deixe-nos actuar com o plano S!...
-Estratégia M e plano S? Já não recordo...
-Não se faça de tanso! eu estou aqui na tasca do Zé da Aldeia não há perigo de os esbirros da judite andarem por aí... O plano M é o "mergulho na piscina", carago!! Os nossos andam ali perto da área, atiram-se para a piscina e truca! há aquelas faltas cirúrgicas que, de tanto acontecerem, dão golo... Na nossa área nada, claro! Só umas faltinhas inofensivas no meio-campo, até pode ser contra nós, só pra despistar... Mas na deles, é preciso muitas e perigosas... tantas vezes vai o cântaro à fonte... que, numa delas, pode ser golo!
- E o plano S, qual é?!
-Ó pá você não tem ido àquelas reuniões lá no Barco de Camaveses, carago? Não sabe que depois do golo obtido há que dar Sarrafada, e você (e toda a malta do esquema, claro) faz vista grossa, senão... eu quero aquela gajada de Lisboa toda de joelhos perante a Torre dos Clérigos, já passou o tempo em que íamos a Lisboa lamber as botas ao Marquês de Pombal!
-Essa não percebi!
-Você ainda tem nessa caximónia aquela ideia nortista, aquele bairrismo que se entranha cá na mioleira e nunca mais sai, até a terra comer as ossadas. Toda a gente tem carago: polícias, juízes (excepto aquele ingénuo de Gondarém...), professores, árbitros, empresários; a gajada de Lisboa só é boa com os pés prá cova! São uns sulistas, elitistas, sei lá, uns gosmistas, querem tudo para o Terreiro do Paço e nada para os Clérigos. Isto agora mudou, ouviu?
- Conte comigo, meu coronel! e não se esqueça dos "pimentinhos"...
-Não esqueço não! Se a malta ganhar àquela gajada de Lisboa dobro a parada, ouviu?
-Você manda, coronel! Já agora também um pedido: quero ser internacional, veja lá... dê um empurraozinho na classificação, arranje-me sempre bons obseradores...aqueles que só dão notas altas, fixes! Olhe, o meu cunhado, o Escova, aquele empreiteiro que comprou aquele terreno... espera que para o ano já lá possa construír...
-Sim, pá! Estou a dar umas dicas a uns gajos para aquilo andar depressa, eu também tenho interesse nisso, a minha comissão também virá com a autorização.Mas já andei depressa demais aqui num caso recente e deu muito nas vistas... é preciso dar tempo ao tempo...
-Então combinado, meu coronel! A gajada de Lisboa vai levar naquelas ventas que nem sabe onde fica o Marquês!
-Gosto disso, pá... no verão, já sabes, conta comigo outra vez...
Cai o pano. O coronel é beijado sofregamente por uma senhora muito bem apetrechada em termos lácteos e não só... é a D. Judite, do Porto, claro!...

Madre Teresa a anti-narcisos...É vê-lo na assembleia da república, ar pomposo e enfatuado, debitando discursatas gongóricas, é vê-lo nas jantaradas de homenagem que lhe são prodigalizadas por ser dirigente do clube, é vê-lo junto das comunidades de emigrantes aquando da celebração de algum evento, é vê-lo a dar suculentas entrevistas aos jornais desportivos (onde tem lugar sempre cativo), às rádios, às TV's.
Que de majestade, que de imaculada fisionomia, que de linguagem rebuscada cheia de esoterismos e de neologismos plenos de originalidade e de graça!...
É vê-lo também nos púlpitos, arrebatando com uma arenga estudada meticulosamente, as massas ingénuas, subtilmente embasbacadas pela sua litania de Frei Tomás, com odor quase santificado; é vê-lo e ouvi-lo nos cafés, sempre rodeado de súbditos atentos e veneradores, sorrindo forçadamente a todos os seus ditos; é vê-lo a cirandar pelos corredores dos ministérios, com gravatas e perfumes berrantes para contrastarem com o cinzentismo moral, com o negrume do carácter.
Ele anda por aí. Diz-se envolvido por pedidos irrecusáveis para aceitar a tal estátua, o tal busto, a tal pintura na cripta onde se perpetuará "ad infinitum", qual supra-sumo das virtualidades humanas... Coitado, não poderia recusar, seria ofender essas pessoas tão amigas, tão seguidoras do seu trajecto humanistico, tão carentes de amparo espiritual...
É igual a si próprio quando, com falsa humildade, distribui louros e prebendas por outrem, dando a entender que só o faz por... comiseração, por pena do séquito de acríticos e amorfos acólitos que o rodeiam.
É ele também o líder doirado, o integérrimo condutor de almas, o pastor de um redil amorfo e pardacento que cultua a sua imagem com o fervor de um zelote; é o centro do mundo, o sol, a quinta-essência; quanto aos outros, se luzem, é só por estarem sob a sua órbita... É, não raro, imbuído daquela presunção estulta que o faz pavonear qualidades em tudo o que participa; tem-se na conta de figura admirável, paradigma moral por excelência, enfim, dir-se-ia que o país, este pequeno país, este povo ignaro e inculto, não o merecem... ele é doutra estirpe, doutra galáxia! Ademais, é também um incompreendido...
Ele, narciso, não admite erros, falhas, incongruências, hipotéticas contradições.
Repete bastas vezes: "se fosse hoje, faria tudo na mesma, tudo sem alterar uma palha!" dando a entender que o seu trajecto foi delineado no olimpo por deuses tutelares de quem é um sub-produto, uma emanação.
Não sabe conviver com a crítica. Críticas? São tudo disparates pegados de invejosos, de ressabiados, de quixotescos adversários que não chegam aos seus calcanhares, seriam indignos de lhe apertaram os cordões dos sapatos, quanto mais esgrimirem com ele, o douto, o sábio, o dono da verdade... Se calhar queriam o seu lugar, " mas falta-lhes a sua estatura intelectual, o seu cabedal cívico, a sua honorabilidade, a sua credibilidade", desabafa, petulante, entre amigos e confidentes...
Quando atinge algum destaque _ e acontece isso, com desusada frequência neste jardim de ingénuos úteis, à beira-mar plantados... _ ei-lo que se rodeia de "nepos", de "paus-mandados", "criados-para-todo-o-serviço", cultuando a imagem do "caudilho" na mira de poderem abocanhar todas as migalhas que caiam da mesa orçamental. Enfim, fidelidades (e voracidades) caninas; a par de um seguidismo acrítico e acéfalo há um interesseirismo de piranha, um apetite inversamente proporcional aos escrúpulos...
O narciso abomina lugares subalternos; quer sempre a primeira fila, o destaque que dê dividendos mediáticos, o pedestal, o galarim mais parolo...
Ele é bom em tudo (ou melhor, tem-se na conta de o ser..), excepto em... modéstia... E, mesmo quando habilidosamente despe a casaca do egocentrismo(querendo aparentar certa "normalidade"), fá-lo de tal sorte que fique a pairar no espírito de todos certa magnanimidade, certa condescendência, estilo: "até jogo uma sueca lá no café da Guida, ou o dominó no salão do meu bairro"...
Não dá ponto sem nó. Os outros são "vaidosos", ele não, tem autoestima! Os outros são aperaltados, ele não, ele veste bem! A teimosia é para os outros, nele tem o nome de perseverança!
Enfim, D. Narciso pode ser um simples cónego, um presidente de câmara, um deputado, um ministro, um presidente de um clube de futebol, um empresário.
Ele anda por aí!
Quando o virem, lembrem-se deste diagnóstico e ... com ironia, atirem-lhe esta:
__ Então como tem passado, senhor Narciso?! E, como vai a sua esposa, D. Empáfia?!



