sexta-feira, novembro 27, 2009

A bênção do TGV!



Guerra Junqueiro








Ele vem aí. Há que o benzer para o libertar dos pecados originais. Nada melhor do que recordar o imortal Guerra Junquero. O tempo é de profunda meditação. Até porque já temos o padre Maçarico que com a sua bênção (qual vacina celestial...) cura a Gripe A!
A propósito, a senhora ministra da saúde já o contactou para administrar bênçãos em vez de se gastar uma fortuna em vacinas polémicas, com efeitos secundários tenebrosos?!
Se ainda o não fez, está a dar razão àquelas vozes que dizem ser este governo « o da oportunidade perdida!»

GUERRA JUNQUEIRO, regressa, o país precisa da tua sábia eloquência, do teu acendrado amor ao chiste, do teu apego à saborosa sátira, mais saborosa ainda que uma sardinha assada em cima de um naco de broa, lá pelo S. Pedro, na praia da Póvoa de Varzim!



A BENÇÃO DA LOCOMOTIVA



A obra está completa. A máquina flameja,
Desenrolando fumo em ondas pelos ares
Mas, antes de partir, mandem chamar a Igreja,
Que é preciso que um bispo a venha baptizar.
Como ela é concerteza o fruto de Caim,
A filha da razão, da independência humana,
Batam-lhe na fornalha uns trechos em latim
E convertam-na à fé católica romana!



Devem nela existir diabólicos pecados,
Porque é feita de cobre e ferro; e estes metais
Saem da natureza, ímpios, excomungados,
Como saímos nós, dos ventres maternais!



Vamos esconjurar-lhe o demo que ela encerra
Extraír a heresia ao aço lampejante!
Ela acaba de vir das forjas de Inglaterra,
E há-de ser, com certeza um pouco protestante!



Para que o monstro corra em férvido galope
Como um sonho febril, num doido turbilhão,
Além do maquinista é necessário o hissope
E muita teologia... além de algum carvão.




Atirem-lhe uma hóstia à boca fumarenta
Preguem-lhe alguns sermões, ensinem-lhe a rezar,
E lancem nas caldeiras um jorro de água benta
Que com a água do céu talvez não possa andar!


Guerra Junqueiro

Nota: o padre Maçarico será capaz de benzer o futuro TGV e erradicar-lhe os pecados originais?!
Se for, não duvido das suas potencialidades transcendentais, há que o contratar já! a empreitada ficará mais barata, não haverá derrapagens e o próprio Tribunal de Contas congratular-se-á com os resultados finais!

10 comentários:

Mariana disse...

Não conhecia o Guerra Junqueiro.
Nada como visitar os blogs e aprender.
beijos

Victor Gil disse...

Não sou completamente contra o TGV, sou mais contra as coisas que se não fazem. Aquelas se fazem, de uma maneira ou outra, apesar dos pecados, sempre servem para algo ou servem algo. O problema está depois naqueles que estão por detrás dessas obras, que esbanjam dinheiro público a torto e a direito sem regras algumas. Esses sim são os maiores pecados das nossas obras públicas.
Um abraço
Victor Gil

rouxinol de Bernardim disse...

Mariana.

Ainda bem que assim acha. A cultura está onde menos se espera... Há blogs pra tudo...

rouxinol de Bernardim disse...

Victor Gil:

De facto as derrapagens são o grande pecado destas coisas...

maria teresa disse...

Que bom que é "ver" Guerra Junqueiro", é um colírio para os olhos.
Bem-haja por o relembrar!
Bj

rouxinol de Bernardim disse...

maria teresa:

Essa do «colírio» está muito original. Os olhos bem precisam, por este mundo fora vemos cada coisa, que até ficamos de olhos em bico...

1 bj

Marieke disse...

Fantástico e actualissimo este nosso Guerra..que tão bem nos descreve na sua Pátria...ahahahah

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (…)

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (…)

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, - como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; (…)

Dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)»
Um abraço

Mariazita disse...

Estou de passagem apenas para desejar um bom fim de semana.

Vou "viajar" no fim de semana, mas deixo programado um capítulo da Anita .
Assim continuarei na companhia de todos :)))

Quando regressar virei comentar.
Fica bem.

Beijinhos
Mariazita

rouxinol de Bernardim disse...

Marieke:

De facto esse texto é INTEMPORAL!

Grande Guerra Junqueiro que se imortaliza todos os dias!

rouxinol de Bernardim disse...

Mariazita:

Bom fim de semana e boa praia por essas bandas... que inveja, o sol tropical sempre me seduziu... com uma caipirinha e uma tolha estendida, um sol!!!