rouxinol de Bernardim

Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo. O mundo e a sociedade sob o olhar atento e desassombrado de um cineasta do quotidiano, um iconoclasta moderno, sem peias, sem tabus, sem preconceitos.

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Penso, sonho, trabalho, amo... logo, existo!

quinta-feira, setembro 10, 2009

CONTO ERÓTICO!




NOTA PRÉVIA: O autor não se responsabiliza por danos cardíacos sofridos pelos leitores que ousarem ler até ao fim...
Os especialistas designam o fenómeno por sublimação. Trata-se de uma capacidade que têm as pessoas apaixonadas de transformarem o ser amado numa coisa perfeita, sem defeitos, sem sombras de pecado, fazendo que exalem um permanente perfume afrodisíaco; os próprios defeitos, a existirem, são transformados em excelsas virtudes, tal a força desse mecanismo...
Enfim, ela estava nesse estado. Já entradota, balzaqueana em duplicado, com os atributos físicos em notória decadência, mas com a mente desperta e disponível para amar.
O «Príncipe» a princípio não lhe mereceu grande euforia. Manteve-se discretamente distante e fria até. Não aceitou convites para festas nem o mimoseou com piropos próprios de quem corteja. Não, não foi amor à primeira vista.
Mas, quando Cupido lhe lançou um dardo directamente ao coração, ela cedeu; a tentação da carne foi mais forte, a líbido ferveu como água numa panela de alta pressão. Estava derretida por ele. Começou a colocá-lo num pedestal dourado, elegê-lo como paradigma, como objecto d e culto até.
Não, não seria uma espécie de «bezerro de ouro», não, não era. Talvez um boi Ápis de conotação faraónica. Ela cultuava-o e incensava-o como uma vestal supostamente o faria num templo romano. a ele, ao seu Prínicipe encantado, ao seu boi Ápis, objecto de culto...
Todos os defeitos dele__ e eram muitos e notórios__ela os colocava num altar, o altar da sua idolatria assolapada.
E então declarou-se publicamente. Dignou-se ser cortejada na sua própria casa, nos seus domínios. Foi lá expressar o seu acrisolado amor, a sua extremosa devoção.
E teve afirmações grotescas de admiração e de enlevo só capazes de serem proferidas por quem está sob os efeitos desse estado de espírito. De noite sonhava estar entre os seus braços e ser beijada por ele com sofreguidão e volúpia desmedidas. O êxtase final era quando ele falava e se declarava a ela, de forma profundamente romântica e patética, pelo excesso, pela pieguice!
Mas o clímax máximo, passe a redundância, foi quando ela disse que o iria imitar na sua praxis quotidiana.
De noite, entre os lençóis, ela imaginava-se primeira-ministra. a mandar papelinhos ao Dr Marcelo Rebelo de Sousa, tal qual o outro fazia na sua ilhota. Rezavam assim esses papelinhos: «Professor, dê porrada no Sócrates, faça aquilo que combinámos em tempos!», «Dê uma cacetada no Jerónimo, esse bruto quer vir para o poder e está sempre a capitalizar o descontentamento popular!», «Olhe, não se esqueça daquela antecipação estratégica. É preciso chamar-lhes "ladrões" antes que nos chamem a nós!», «Prepare o terreno para uma subida de impostos, diga que é o resultado de anos e anos de socratismo!», «Dê uma coça naqueles que me chamam de Pinóquia... sabe bem que foram as circunstâncias adversas que me levaram a suspender o processo democrático! Mas é só por seis meses, como já em devido tempo eu tinha alertado!»
Depois, bem, depois ia agarrar o telefone para lhe dizer:«Tenha cuidado, mande os papeis para o fogo, não vá acontecer como na Madeira onde o Público foi buscar aquelas cenas caricatas que ainda hoje fazem parte do anedotário nacional!»

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7 Comments:

Blogger Rafeiro Perfumado said...

Conto erótico com palavras como "Marcelo Rebelo de Sousa" ou "boi" tiram qualquer hipótese de ataque cardíaco... ;)

7:32 PM  
Blogger Ana Paula Marinho said...

Retribuindo a visita...
Totalmente hilário esse texto. Você abordou o assunto com tanta delicadeza e mesmo assim não deixou de criticar a situação pública. Totalmente fascinante! Parabéns!
Vou... mas volto!
Um beijo.

10:42 PM  
Blogger Dalinha Catunda said...

Olá amigo,

Seus textos além de interessantes de se ler, trazem sempre uma crítica o nos fazer raciocinar e repensar nosso olhar, que muitas vezes não enxerga o que realmente deveria ser visto.

Um abraço,
Dalinha

12:15 AM  
Blogger LOURO said...

Amigo Rouxinol,

bom texto...Belo retrato do poder!!! Parabéns!!! gostei!!!

Bom fim de semana,

abraço,

Lourenço

2:01 AM  
Blogger mundo azul said...

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...uma sátira!

Confesso que não estou muito a par da situação política, mas, gostei do modo como conduziu o texto!


Beijos de luz...


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11:28 AM  
Blogger © Piedade Araújo Sol said...

um texto muito ao estilo do Rouxinol.

mordaz e real.

um beij

6:38 AM  
Blogger Zica Cabral said...

Lindo este texto, fantastico, modaz e muito bem escrito. Eu vivo longe destas cenas portuguesas. Longe em Km e em interesse. Mas adorei este texto.
Muito obrigado pelas suas palavras no meu blog......."estrela fulgurante"??? Nem pensar nisso ahaha! Limito-me a tentar passar para o papel (neste caso para um outro suporte) os meus pensamentos, sentimentos e situações vividas. Mas gostei do adjectivo.........o meu ego cresceu mais um bocadinho, o que é sempre bom.
Beijinhos
Zica

10:59 PM  

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