rouxinol de Bernardim

Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo.

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quinta-feira, julho 27, 2017

Polémicas antigas na Junqueira


Recorte do Junqueira Antiga onde se pode vislumbrar as guerras de alecrim e manjerona com uma Festa ao Santíssimo Sacramento.
Será que o Santíssimo Sacramento sempre foi um pretexto para vaidades mundanas, para exibicionismos de um certo elitismo, ou caprichos de alguns ressabiados? 
Onde se vislumbra religiosidade intrínseca? Onde está o império da devoção, o magistério da fé, a espiritualidade pura?
Não se descortina nada disso. Apenas vaidade, presunção e água benta, até desonestidade intelectual. Aqui o meu Pai (Manuel Domingues Leite de Sá ) é a vítima de um Correspondente de um jornal (José Lopes da Costa). Já nessa altura se gastava muita tinta, tinta de mais para nada. Agora, o JVC acusando a atual presidente de câmara de não nomear vereadores que não lhe são afetos (ou que não nutrem por ela o respeito e a lealdade devida) navega nas águas da polémica, olvidando a religiosidade intrínseca. Apenas a espuma da banalidade salta à tona...
28 DE AGOSTO DE 1950 Uma Carta Junqueira, 18 de Agosto de 1950
Senhor Redactor do Jornal “Renovação”
“Num dos últimos números deste Jornal, publicou o Senhor Correspondente da freguesia da Junqueira uma notícia que, para quem não estiver ao corrente dos factos, pode dar motivo a suspeitas sobre a honestidade das pessoas nela indirectamente visadas. A nós não nos admira isso, pois de há muito conhecemos no Senhor Correspondente o arreigado costume de, nas colunas dos jornais, escrever sobre tudo e sobre todos…
Dá a entender o Senhor Correspondente que a festa ao SS. Sacramento podia ter sido melhor do que foi. É natural. Podia até suplantar as Sanjoaninas ou Gualterianas. Diz também que a festa não agradou a todos. É naturalíssimo. Fosse como fosse, por mais grandiosa que fosse, nunca agradaria a todos. Mas isso dá-se com tudo. Tiveram o aplauso unânime do povo algumas das obras que, por iniciativa do Sr. Correspondente, se realizaram nesta freguesia?
Cumpriu-se o programa. A festa foi modesta? Sem dúvida. O dinheiro não deu para mais. E para ser como foi, necessário se tornou a alguns membros da Comissão desembolsarem algumas centenas de escudos. No Arquivo da Residência Paroquial pode, quem quiser, verificar a veracidade destas afirmações.
Para as pessoas desta freguesia que conhecem de sobejo do quanto é capaz o Sr. Correspondente, pelo muito que ele já tem dito, não só no jornal “Renovação” como também num diário do Porto, sobre variadíssimos assuntos e sobre pessoas da maior honestidade, não são por certo estes esclarecimentos, pois deles não precisam para nos fazer justiça. Eles são para os descontentes, para os que navegam nas mesmas águas, aos quais aconselhamos também uma boa dose de paciência, até ao ano, para assistirem a uma festa de arromba…
E agora, permita-nos o Senhor Correspondente que nos aproveitemos duma linhazinha da sua notícia com um brevíssimo acrescento nosso para ultimarmos esta carta: “Mas há quem pense que, desde que uma criatura assuma, embora temporariamente, a direcção de qualquer serviço, pode fazer e escrever tudo, mesmo sem ouvir a voz da melhor razão, que a sua cabeça elabore”.
De V. Ex-ª, etc, Manuel Domingues Leite de Sá
2 DE SETEMBRO DE 1950 Carta à Redacção Junqueira, 28 de Agosto de 1950,
Ex.mo Sr. Redactor
Venho, como com certeza já contava, responder à carta, aos enxovalhos que “Renovação” inseriu no último número, só porque eu ousei, no uso de um direito e aliás nos termos correctos, fazer umas referências à festa do SS: Sacramento que não soaram bem ao respectivo tesoureiro.
Eu bem sei que aquilo não é obra do Sá, a quem eu, desde criancinha sempre tratei com as devidas atenções, mas dos oportunistas a quem ele se encostou e que não deixam perder a ocasião de, na sombra traiçoeira, arremessar a sua seta perigosa.
Por isso, eu perdoava-lhe, se ele, signatário daquele pobre escrito, espelho miserável da alma dos seus autores, não revelasse na sua antipática atitude somente ignorância; mas o Sá, que é de maior idade, no seu procedimento comigo foi também grosseiro, insultuoso e até calunioso, subscrevendo afirmações tendenciosas, que deverá provar.
Assim, que é que tu queres dizer naquela expressão: – Para as pessoas festa freguesia, que conhecem de sobejo do quanto so sr. Correspondente é capaz…? De que é que eu sou capaz? De assaltar o teu cofre? De infamar alguém? De faltar a compromissos?
Pobre intelecto o teu!… São as leituras de Zola e de Victor Hugo, naturalmente, que te tem levado a esse estado de alma…
Mas, mais: quais foram as pessoas honestas, ou mesmo desonestas, que eu maltratei? Que obras desta freguesia, por mim sugeridas, é que não lograram o aplauso geral – reparação de fontes, lavadouros, asseio do cemitério, plantação de árvores, aformoseamento de largos, etc.? Quem não aplaude isto? E quais foram as tuas obras e as dos teus secretários e ajudantes? Só estes é que não aplaudiram, porque nunca fizeram nada de útil e também, invejosamente, não querem que os outros façam.
Se, pois, não provares as tuas insidiosas afirmações, terei o direito de te chamar caluniador. Aqui não se tratava, homem, de uma festa feitas com mais ou menos pompa: há até festas que não têm música e em que ninguém repara nem censura. A tua festa, porém, tem carácter vincadamente acintoso, e sabes bem os desgostos que isso te acarretou, em virtude da tua atitude desconcertante e autoritária até para com os teus colegas da Mesa.
– Se os pobres quiserem uma festa melhor, que a façam, disseste tu. Isto são frases infelizes, meu caro… Os pobres, sendo honrados, valem tanto ou mais do que alguns ricos, mas tu lembras-te de que só quem tem dinheiro é que marca… Tu viste como eles te responderam, – com brio, com dignidade. Além de outras coisas desagradáveis, no fim da missa, quando a música se preparava para entoar os seus primeiros acordes, o povo, esse povo honrado e bom que tu desprezas, retirou-se em massa, no local apenas ficando tu e alguns mesários. Terrível resposta para quem souber interpretar bem a alma popular.
Quanto às insolências que perfilhaste, oxalá vós tivesses os mesmos altos e nobres sentimentos daqueles que dizes navegarem nas mesmas águas… E prepara-te para concretizares as aleixosias que insinuaste.
Desculpe, sr. Redactor, o precioso espaço que lhe tomei e que foi preciso para sanear o ambiente.
De V. Ex.ª, etc.
José Lopes da Costa
(Correspondente da Junqueira)
23 DE SETEMBRO DE 1950  Carta à Redacção
Junqueira, 20 de Setembro de 1950.
Ex.mo Sr. Redactor de “Renovação”
“Mais uma vez quis o Senhor Correspondente da Junqueira mostrar a sua verbosidade com o arrozoado que “Renovação” inseriu no penúltimo número. Mais uma vez quis o Senhor Correspondente mostrar quem é, julgando erradamente mostrar ser o que pretende ser. Metendo os pés pelas mãos, vem agora dizer que não se pretendia uma festa pomposa, quando na sua correspondência, que motivou a minha primeira carta, focou a pompa das festas passadas, as quais tinham atingido “proporções grandiosas, que pela decoração da nossa melhor artéria, quer pelas afamadas Bandas de Música, quer pelo concurso de distintos pirotécnicos”, etc., etc., e “que a generosidade do nosso povo é garantia segura para se fazer uma festa sem sacrifícios grandes para ninguém”.
Agora já não é da falta de pompa que se acusa a minha festa. Agora é acintosa. Coitada dela. Que nome tão feio V. Ex.ª lhe deu. Mas ela não se zanga, senhor correspondente, com a afronta. Como a queria, então? Com pompa ou sem ela? Pena foi que C. Ex.ª não aceitasse o encargo de a fazer para o ano, para nós lhe tirarmos o modelo.
Lamento que V. Ex.ª não quisesse compreender o que eu disse ao escrever que nem todas as obras sugeridas por V. Ex.ª tiveram o aplauso geral. Eu lho explico: qualquer obra, por muito importante que seja, tem sempre alguém que a critique. Há sempre qualquer coisa a dizer dela, embora os seus benefícios sejam bem palpáveis. Uns fazem-no por espírito crítico, outros por maldade, outros ainda por inimizade com os seus autores. Não admira, pois, que a minha festa, sendo uma obra, tivesse também quem a criticasse, estando à frente V. Ex.ª e os seus satélites.
Partiu de V. Ex.ª a ideia da construção dos bancos em frente à escola, onde V. Ex.ª se senta nas horas de recreio. Não seria mais útil que o dinheiro nosso gasto fosse dispendido na limpeza do poço que há na Escola donde V. Ex.ª tirava água para consumo, quando nela habitava? Acha bonito que as crianças, para matar a sede, andem em bicha, atravessando a estrada, em correrias, com perigo até de ser atropeladas, a incomodar constantemente a vizinhança para lá beberem, indo por vezes pedir água a uma loja onde se vende vinho, de onde um professor as deve constantemente afastar?
Não sabe V. Ex.ª do que é capaz? Esquece-se da maldade dos seus escritos para os jornais? Ou julga que não há quem veja neles o que neles há de encoberto? Se não se lembra já, que lho lembrem os seus amigos, apostando-lhe este o aquele caso, esta ou aquela pessoa atingida. E veja V. Ex.ª, se a sua obra é tão boa como diz, se os benefícios que por sua iniciativa vieram para a nossa terra são de tal importância, se o seu trato é cavalheiresco, porque razão não encontra V. Ex.ª um amigo em cada habitante da freguesia? E em amigos é V. Ex.ª muito pobre. Não lho diz a consciência? Não lho diz a recordação dos muitos dissabores por que tem passado?
Não sou caluniador, senhor correspondente. Com a minha carta quis apenas dar uma explicação ao povo da minha terra, se bem que tal não fosse preciso, por ser bem conhecido o autor do enxovalho.
E saiba V. Ex.º que, não me merecendo a mínima consideração, dou o caso por arrumado.
De V., etc.,
Manuel Domingues Leite de Sá~