O discurso improvável (obviamente ficcionado...) do economista sério, honesto chamado Aníbal Cavaco.Portuguesas
Portugueses:
É hoje um fato incontroverso que o país está de tanga, como nunca esteve. Este sobressalto cívico desta geração que se afoga na precariedade e no desemprego forçado é legítima, é pedagógica até. Os que agora fazem erguer a sua voz nas ruas não têm acesso à comunicação social, não têm poder de decisão, não têm capacidade financeira para encetar projetos, mas têm potencialidades adormecidas que importa reconhecer. Há que olhar com atenção para as suas reivindicações legítimas.
A culpa do actual status quo não é da exclusiva responsabilidade do contexto internacional, é também dos decisores políticos indígenas que têm contribuído para a actual situação. E muito, diga-se em abono da verdade mais genuína.
O político Cavaco Silva (que é meu parente mas com o qual não partilho afinidades cívicas nem princípios éticos... é bom que se diga frontalmente), é também um dos responsáveis remotos do actual caos. O progenitor do monstro despesista foi ele, como disse e muito bem um conhecido economista poveiro.
Ele sabia, e não podia alegar ignorância, que é nos ciclos de pujança económica e financeira que se preparam as reformas estruturais para enfrentar situações de crise, de ciclo negativo, de recessão. Mas não o fez como seria imperioso. Deixou-se caír no engodo populista e permitiu que a função pública crescesse em demasia, desafiou os alertas salutares do Tribunal de Contas, do Provedor de Justiça__ a quem apodou de «forças de bloqueio»...) e de alguns pensadores prudentes e clarividentes a quem acoimou de profetas da desgraça e aves agoirentas... permitindo um crescimento desmesurado do aparelho de Estado com todas as cargas negativas daí advenientes. E deu no que deu...
Não foi só ele, é justo sublinhá-lo. Guterres, Barroso e Sócrates também contribuíram, cada qual a seu modo, para o perfil que se vislumbra no rosto da Pátria. Ela está anémica, esfarrapada, subnutrida e desmotivada. Anda pelas ruas da amargura, bem sabemos. Todos são culpados, que ninguém se possa eximir às suas responsabilidades.
Portugal é hoje, a par da Grécia e da Irlanda, muito embora em menor escala, um paradigma de irracionalidade económica, de despesismo galopante, de negação a todos os níveis.
Falta de planeamento, falta de supervisão, falta de carácter também da parte de alguns decisores políticos. A corrupção emerge como um tsunami de gigantescas proporções, ameaçando fazer ruir os alicerces desta Pátria multi-secular.
Estas novas gerações têm o futuro hipotecado. Por nós, os que estivemos ao leme, os que tivemos cargos de responsabilidade. Ignorámos os avisos à navegação feitos por alguns opositores a quem apodámos de «radicais», anatematizando desta forma as suas visões justas, os seus raciocínios atentos, as suas análises sensatas. Há que mudar radicalmente. Há que seguir outro rumo!
«Radicais», «forças de bloqueio», «profetas da desgraça», eis alguns mimos lançados a pessoas judiciosas, equilibradas, prudentes. O país deve meditar nestas minhas palavras.
Como economista, sei o que é o «over-trading», que nas empresas pode ter efeitos nefastos, levando-as à falência. Os países também podem ser vítimas de uma espécie de «over-trading» criando estruturas gigantescas num dado contexto de prosperidade, mas que serão desastrosas quando a actividade económica diminuír.
O populismo e o desejo de ganhar eleições a qualquer preço, os fins justificando os meios, enfim a demagogia que norteou os destinos da Pátria e está na génese, na patogénese da enfermidade que ora se deteta. A culpa não deve morrer solteira: casa-se bem com todos os líderes que cá fizeram figura bem triste.
Governos, autarquias, governos regionais, grandes empresas públicas ou semi-públicas, parcerias público-privadas, todos com a sua quota-parte de culpas no cartório. Mordomias e sinecuras sem conta atulharam o país de lés a lés.
O próprio presidente da República foi agente passivo e permissivo. Nunca verberou publicamente os desmandos na banca (onde tinha e tem alicerces eleitoralistas), nunca fustigou como se impunha a corrupção reinante.
A justiça é um fator de desmotivação para o investimento estrangeiro. É até um factor de descrédito nacional tantos e tão deprimentes são os casos que têm vindo a lume e que não são nada abonatórios para os seus agentes. O país merece outra geração de políticos, estes estão no limiar da putrefação. O lodo invadiu as instituições que deveriam ser pilares da honra. O vil metal tudo comanda, tudo controla, tudo subjuga. Dizem que é como o azeite: por onde passa, amolece... tudo e todos! Todos se vergam a ele, depudorada e ignominiosamente!
As eleições são tudo menos pedagogia, esclarecimento, elucidação. Folclore, circo, palhaçadas sem conta. A democracia que hoje impera em Portugal é uma caricatura. As leis, longe de incentivarem a práticas decentes e honestas, são uma alavanca potenciadora de fraudes, de evasões, de malabarismos de todo o jaez. Portugal definha. A economia está de rastos. O país está de tanga.
PEC's e mais PEC's só contribuem para a definhar ainda mais, os juros altíssimos que pagamos vão fazer aumentar ainda mais a precária situação que já perdeu sustentabilidade.
Que fazer?
Os políticos podem limpar as mãos à parede. O país agradece a substituição rápida destas criaturas de cera que passam a vida a sorrir, a manifestar euforias hipócritas, quando o povo não sorri, o povo não anda eufórico, o povo não se dá ares de triunfador. O povo sai à rua e ergue a sua voz.
O povo sai à rua manifestando a sua ira, o seu desconforto, a sua dor por ter ao leme da nau tão maus pilotos.