rouxinol de Bernardim

Um blogue plurifacetado procurando abordar questões de interesse sob perspectivas diversificadas. A independência sim, mas sempre subordinada a parâmetros de bom senso, de optimismo e de realismo.

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Penso, sonho, trabalho, amo... logo, existo!

domingo, junho 29, 2008

O tesouro escondido!



O tesouro do séc XVI, com jóias lindíssimas, de um pirata famoso...
Às vezes, em conversa de ocasião, ia dizendo a Sandra que era um tesouro; pela simplicidade, pela descontracção, pelo humor e sarcasmo sempre permanentes. Mas a vida tem destas coisas, os tesouros materiais também podem surgir inopinadamente. Foi o que nos aconteceu...
A manhã já ia alta e o calor apertava. Debaixo de uma sequóia gigantesca procurámos a sombra protectora. Sandra até comentou:
__Imagino que com este calor a Califórnia esteja sob fogos descontrolados, como já vai sendo habitual. Tanta riqueza florestal se perde, prejuízos imensos para a humanidade. Quem sabe se na Grécia ou na Austrália o cenário não será idêntico? Nós aqui sem um isqueiro ou um fósforo estamos ao menos protegidos dessa calamidade...
De repente, olhei para o tronco da árvore e descobri uma inscrição. Era como se fosse uma tatuagem num corpo humano. Muito bem executada e com algo de misterioso. Algumas letras e um caixote...
As letras diziam apenas: F.H.F. - N.
Pensei tratar-se de uma declaração de amor entre FHF e N...
Sandra, mais perspicaz, deu o alerta:
__Pode ser a localização de um tesouro! esse caixote pode conter algum tesouro. Vamos ponderar...
O seu Q.I. acima da média começou a dar frutos. «N» talvez seja a localização: Norte!
O resto veio por acréscimo... a sua inteligência fulgurante rapidamente descobriu o enigma.
De imediato comecei a percorrer o local num vector virado a Norte a fim de encontrar algo. E foi encontrado o famigerado local! Era tão elementar: F de five, H de hundred, F de feet!...
A quinhentos pés deste local , um tesouro! E havia!
Era uma cova coberta de folhas e ramos secos. Destapámos tudo com muito cuidado. Dava para um buraco negro, uma gruta donde saíram alguns morcegos atarantados. Percorremos alguns metros e, mesmo ao fundo, coberta por uns restos de comida (viam-se ossos por todo o lado...) lá estava a arca escura e tentadora. Por cima duas letras: F. D.!
Foi difícil abri-la. Usamos toda a perícia ; com pedras e alguns ferros retorcidos (trazidos de alguma caravela certamente) lá conseguimos abrir aquela arca cheirando a mofo e carregada de fezes de animais no exterior meio encoberto.
Ao abrir aquela arca ali conservada durante mais de quatro séculos tivemos certas cautelas. Seria alguma armadilha? Seria alguma cilada?
Não, não era armadilha. Era mesmo o cofre de algum pirata ou de algum navegador que ficou perdido e não conseguiu arranjar um barco para prosseguir viagem ...
Sandra pensou naquele «FD» tão intrigante e, ao fim de alguns minutos de pesquisa na sua prodigiosa memória lá decifrou o enigma: Francis Drake!
Ele fora nomeado corsário pela rainha Isabel I de Inglaterra. Tinha obrigação de partilhar os lucros da sua actividade com a coroa. Seria uma forma de fugir ao controlo? Estaria aqui a génese dos actualmente tão badalados «off-shores»?!
__Francis Drake atacava sobretudo os espanhóis. Ele integrara a armada inglesa que destroçou a famosa «Armada Invencível» espanhola. Fora almirante da marinha britânica e agora trabalharia por conta própria. Isto devia ser uma tentativa frustrada de fuga ao fisco...
E Sandra foi prosseguindo com a narrativa. Drake auxiliara D. António Prior do Crato para evitar que a Espanha anexasse Portugal e se tornasse ainda mais forte, como viria a acontecer. Apesar de tudo, atacara e pilhara Lisboa e vários portos portugueses. Era um «profissional competente», disse Sandra com ar sorridente.
Enfim, chegara a ser condecorado e eleito «Sir» pela rainha. A pirataria era então uma actividade patriótica para os ingleses que estavam no dealbar de uma nova era . Portugal e Espanha eram a talassocracia de então. Os piratas ingleses começaram a destruír essa hegemonia dos mares e a Inglaterra foi avançando na conquista desses domínios...
Enfim, o que fazer com este tesouro numa ilha deserta? Não, não dava de comer, não dava para viajarmos, para saírmos dali... era apenas algo que no futuro poderia interessar-nos... se dali alguma vez conseguíssemos saír...

sexta-feira, junho 27, 2008

Ovos alienígenas!...



Spildeberg responde a Sandra Bullock:


«Extraordinário, minha cara Sandra Bullock! Descobriste o ovo de Colombo!»



Isto aqui numa ilha deserta é bem duro e não dá descanso! Se fosse como nos filmes, onde os actores andam sempre bem dispostos e bem barbeados, onde se arranjam sempre materiais para trabalhar barcos abandonados ou aviões, onde há mecânicos e peças sempre disponíveis, ainda vá que não vá, mas agora para nós, isto fia mesmo muito fino! Nem um canivete temos, nem sequer um isqueiro, nem tesouras para cortar a barba, aparar o cabelo ou as unhas. Não existe um prego, um martelo, uma chave de fendas nem um parafuso. Nem uma arma, nem um machado, nem uma fisga!...



Isto aqui é mesmo a selva a sério! Só dá para comer umas frutas selvagens e uns peixes crus, que apesar de tudo nos sabem que nem lagosta suada! Ainda ontem a Sandra Bullock, ao saborear um naco de gibóia, comentava com ironia: «É melhor que lampreia!»



«A necessidade aguça o engenho!» dizia o grande Camões. De facto, temos que nos adaptar a tudo sem tugir nem mugir. Ainda bem que temos água com fartura, para tomar banho, para beber, para nos divertirmos.



Hoje de manhã cedinho lá fomos junto das pirâmides para observarmos o que os alienígenas tinham escondido e que não pudemos analisar na altura. Passámos por vários castores fazendo mini-barragens, sempre num labor intenso. Olhando para um deles, Sandra comentou em tom jocoso: «Aquele é o Bill Clinton!»



E explicou-me que era um presidente dos EUA que comia madeira! Gostava tanto de madeira que até comeu uma secretária!...



__Mas, como foi possível, foi na Sala Oval da Casa Branca ?

__Sim, foi. Mas era uma secretária estagiária de nome Mónica!...__riu Sandra, com aquele sorriso gostoso que dava para todo o mundo ficar bem disposto.



Caminhámos longamente até à zona das pirâmides. Ali procurámos o sítio onde os extra-terrestres tinham escondido uns volumes semelhantes a marmitas de alumínio. Seria algum tesouro?



Sandra ainda alvitrou:



__Podem ser as fezes geradas durante a viagem!...



Eu até me arrepiei só de pressentir o cheiro. Mas, com coragem e confiança, lá fui avançando. Era preciso investigar desse por onde desse!...


E assim foi.



Quando ao fim de longos esforços lá conseguimos desenterrar as embalagens, deparámos com uma grande surpresa. Dentro de cada embalagem e no meio de um líquido viscoso estava um ovo! Um ovo em cada embalagem!



A imaginação fervilhava! Que seria? Ovos de extraterrestres? Ovos de algum réptil alienígena que viesse para nos atacar e dar o planeta aos estranhos?



Enfim, tudo perpassava nas nossas mentes inquietas e preocupadas. Sandra desabafou:



_Quem me dera ter aqui o Steven Spildeberg. Talvez ele pudesse desencadear uma investigação profunda e se chegasse a alguma pista credível. Receio que possa estar aqui o princípio de uma nova era... e talvez o extermínio de uma outra...


O dia foi-se passando com relativa tranquilidade. Apanhámos algumas plantas que nos pareceram boas para um chá. Sandra até chalaceou com o tipo de chá que queria fazer.


__Agora parece que há um chá que torna as mulheres mais sexy, lhes dá um busto mais atraente. Não quero ser a Pamella Andersen com aqueles balões de silicone mas sinto que um pouco mais de volume e de elevação me dava outro perfil!...


__Não me digas que agora é moda pôr silicone nas mamas?! __perguntei meio incrédulo, farto de surpresas depois de tantas anos de amnésia... Eu usava o silicone para pôr nos ouvidos quando ia ao mar ou para dormir melhor em meios ruidosos. Agora nas mamas?!


__É a grande moda no momento. Mulher sem silicone é como guitarra sem cordas...


__Os americanos tiveram uma grande actriz cinematográfica, a Mae West, que era conhecida sobretudo pelo extravagante par de hemisférios. Mas eram naturais. Não havia ali nada de drogas artificiais. A marinha até se deu ao luxo de baptizar uns flutuadores salva-vidas com o seu nome. Quem os usasse não morreria afogado certamente!...


__Sim, sim, essa Mae West era demasiado nutrida. Agora quer-se com cintura de vespa, magra e elegante, e só os seios é que devem sobressaír para serem uma espécie de sinais exteriores de feminilidade! Um íman caça-machos!


__Minha cara Sandra, eu aprecio o natural, a justa medida, podes estar descansada e não te sintas frustrada por teres seios pequenos. Se for por causa disso que vais tomar esse chá, não tomes, pode ser perigoso.


E assim desmotivei a candidata a Mae West de algo que poderia ser um risco desnecessário. As mulheres por vezes têm a atracção pelo abismo, lá no seu íntimo.

«MUGABE» foi morto, esquartejado!!!


A boca da gibóia...

Sandra era especialista em dar nomes aos animais. Primeiro foi o Elvis, aquela catatua tão ternurenta. Depois, o casal de papagaios: Carla Bruni e Sarkozy...
Agora, ao ver pela primeira vez aquela gibóia monstruosa, não se conteve que não a catalogasse: «É Mugabe!»
E assim ficou. Os preparativos foram longos. A estratégia de captura bem delineada. O destino da criatura também.
Vamos por partes. A gibóia era uma ameaça para a nossa tranquilidade. Começou a rondar a cabana que criámos, empoleirada nas árvores, para evitar os predadores, e era uma questão de «mata-mata»: ou ela ou nós!
Fizemos uma armadilha (arapuca brasileira) e pensámos no isco a utilizar para a captura de «Mugabe». Depois colocámos o isco num buraco enorme, num plano inferior, tendo no cimo um pedregulho enorme.
A estratégia era a seguinte: era preciso segurar bem este monstro e esmagar-lhe a cabeça, para depois o esquartejar e aproveitar a saborosa carne.
Foi apanhada uma extravagante galinha do mato, muito barulhenta e com penas luminosas.
Colocámo-la bem presa de modo a chamar a atenção do réptil, num buraco longo e cheio de pedras. À volta desse buraco foi colocado um laço de lianas para aprisionar a gibóia caso falhasse o lançamento da pedra sobre a sua cabeça e para evitar males maiores. Depois foi só esperar...
Assim aconteceu. Nós os dois (eu e Sandra), colocámo-nos num piso superior, nos ramos de uma enorme árvore à espera que a gibóia fosse morder o isco. Ela não se fez rogada. Apareceu toda lampeira, com ar guloso, pronta a devorar a galinha do mato. Quando a cabeça enorme entrou no buraco, onde estava a galinha presa, puxámos a ponta do laço e prendemos-lhe o pescoço. A gibóia, surpreendida, estrebuchou, abriu as goelas enormes e soltou um silvo abafado que nos fez estremecer. Então soltámos o enorme pedregulho que lhe fez esmagar a cabeça, esvaindo-se em sangue, muito vermelho e pegajoso. Tinha sido coroada de êxito a nossa caçada.
Depois foi só retirar-lhe a pele e as vísceras. Aproveitámos a carne muito suculenta. Salgámo-la e colocámos tudo num ponto elevado e próximo da nossa cabana para podermos vigiar os predadores...
Enfim, era uma vez «Mugabe»... Tinha terminado este pequeno pesadelo...

quinta-feira, junho 26, 2008

Interrogações...

Sandra Bullock enquanto mais jovem...

A Ilha Deserta...


Sarkozy e Carla...





__Às vezes pergunto a mim próprio se terá sido possível uma revolução democrática em Portugal? Não porque os portugueses o não sejam, mas porque os militares que conheci (os de carreira, do quadro permanente) eram quase todos de um sacrossanto culto ao poder instalado, eram sacerdotes zelotas do templo fascista.
__ Podes crer que é verdade. Foram militares de um posto intermédio: os capitães de Abril, como ficaram para a História. É conhecida como a revolução dos cravos, por causa de ter sido uma revolução de flores e não de tiros, as armas quase não dispararam...
_Mas, minha cara Sandra __ disse com ênfase__ as frases que eu mais ouvia eram: «és pago para obedecer, não para pensar! Há quem pense por nós!» O militar português que eu conheci em Angola era acima de tudo um cego cultor do regime. Tinham sentimentos de «casta», alguns oficiais do quadro permanente. Quase odiavam os milicianos. Ainda recordo o sargento Abecassis a ser punido quando deveria ter sido condecorado. Teve que aterrar de emergência numa clareira da floresta por causa de uma tempestade súbita; ficou a guardar o helicóptero de arma na mão, toda a noite, ao frio e à chuva torrencial e... foi punido!
__Tens razão, talvez fossem os milicianos a influenciarem os do quadro permanente. A situação era de molde a essa colonização cultural, digamos assim. A universidade deu um empurrão...
__Ainda me lembro de ter falado na Convenção de Genebra, de forma inocente, e um oficial superior me ter atirado logo à cara, estilo argumento idiota: «Você é dos que andava nas manifestações na universidade, não era?!» Ainda recordo a forma como esse mesmo oficial se referiu ao papa Paulo VI quando recebeu os líderes do PAIGC, do MPLA e da Frelimo! «O papa é um cretino, um traidor, um monte de bosta!» Quem admitisse a hipótese de uma solução negociada com as forças rebeldes era considerado estúpido, capitulacionista, traidor! Lembro-me bem do que diziam do Manuel Alegre!
A conversa ia decorrendo enquanto se ia degustando o lauto banquete: peixe e mais peixe cru...
O sol ia aquecendo e os mergulhos sucediam-se.
__Preciso de ir ao cabeleireiro, podes -me fazer o favor de chamar um táxi?!__Sandra não perdia o sentido de humor. Mas reconheço que o moral ia descendo com o prolongar desta incursão forçada nos domínios da Mãe-Natureza!
__Logo à noite vamos à ópera! Veste a tua túnica azul, vamos ter que ir bem aperaltados!
A conversa debruçou-se sobre outro tema. Tínhamos avistado uma cobra gigantesca e estávamos a preparar uma estratégia para a capturar. Pensei em fazer uma salgadeira para a conservar em bom estado depois de morta. O sal começou a ser extraído numas salinas improvisadas. O calor era muito e com a evaporação alguma água que guardámos num reservatório de latão abandonado, havia começado a dar à luz o famigerado sal. A desidratação começava a amolecer o corpo, era preciso ter cuidado. O sal seria para salgar a dita cuja... e para nos fortalecer também, pois a desidratação era constante.
Antes de ir para Angola tive um curso de sobreviência na Ota (base aérea perto de Alenquer), dado por um oficial general americano que tinha estado na guerra do Vietename. Aprendi a cozinhar cobra e gostei. Aquela cobra gigante não me iria escapar...
Sandra falou de Marcelo Caetano, o «último imperador» do regime...
_Parece que era um homem inteligente e até da ala esquerdizante, mas depois foi capturado pela extrema-direita. Dizem que foi ameaçado de substituição... __ garantiu Sandra. __ Foi obrigado a ir para o Brasil... depois do golpe de «25 de Abril», claro!
__Recordo Caetano e recordo Salazar. Este morreu em Julho de 1970, caíu de uma cadeira...
Marcelo fora seu discípulo, mas houve entre eles algum atrito. Marcelo fez um discurso de esperança para uma hipotética democracia. Dizia-se que fez um «sinal à esquerda». Contudo, passado algum tempo, virou completamente à direita, por motivos relacionados com a clique económica dominante. Problemas de «trânsito» mental!
Enquanto o mar brilhava e o sol tisnava os nossos cabelos desgrenhados, Elvis Presley, fazendo lembrar o «Sexta-feira» de Robinson Crusoe, ia fazendo companhia; agora trazia companhia também: começou a cantar o «love me, love me tender!» e arranjou uma parceira! Linda, linda de morrer!
Ao longe, no ramo de uma árvore frondosa, um casal de papagaios roçava a cabeça como que a sentir os efeitos da música... Sandra comentou: «Parece o Sarkozy e a Carla Bruni!»
__Não sei como se chama esta ilha _disse Sandra__ mas se pudesse baptizá-la seria: Ilha do Amor Permanente!»
A água estava deliciosa, fomos retemperar energias e mergulhar...

quarta-feira, junho 25, 2008

Acabou o isqueiro!...





Sandra interrogava-se sobre a origem dos Ovnis. Viriam de algum lugar da Terra, de Marte, de Júpiter? De alguma galáxia distante?



Uma estranha sensação de alívio se apoderou de nós depois da debandada dos estranhos seres. Já nem pensávamos nas dificuldades, nos pequenos desconfortos e nas grandes frustrações; era preciso olhar em frente e ter espírito positivo.



O isqueiro, finalmente, dera o último suspiro. Ainda pensámos em fazer uma fogueira permanente, mas não dava. Era preciso uma atenção constante para não propagar incêndios.

Decidimos pescar e pôr os peixes ao sol, em estacas, para os comermos e conservarmos secos.

Entretanto a conversa ia ocupando e fazendo matar o tempo.



_Olha, Roux__ disse Sandra, apontando as nuvens__ será que esta zona é interdita a voos, nunca se vê passar aviões? Barcos também parece difícil. Mas mesmo que apareçam não teremos grandes hipóteses de sinalizar a nossa presença com fumo.

__Entretanto a nossa ausência será notada certamente. Alguém há-de procurar por estas paragens. O teu paquete dará o alarme.



__Oxalá que seja como dizes. Eu tenho sempre esperança. Quanto mais não seja esta experiência vai enriquecer o meu curriculum de realizadora de cinema. Há coisas que só vividas!

__Sandra, fala-me do ano de 2008, dos acontecimentos mais recentes!

__Olha o teu país é protagonista de um caso polémico. Por lá têm passado voos da CIA transportando prisioneiros para a prisão de Guntánamo (Cuba). No entanto o vosso governo disse desconhecer tal tráfego. Mesmo a eurodeputada Ana Gomes, não querendo enterrar a cabeça na areia, afrontou o governo da sua área política (socialista) e foi muito maltratada. Agora, com provas concludentes, o governo já admite qualquer coisa...

__O que é isso de Guantánamo?!

__Olha, o assunto é muito complexo. Dantes havia a União Soviética e os EUA que eram os polícias do universo. Agora tal papel cabe quase em exclusivo aos EUA, e posso ter que dar a mão à palmatória. O terrorismo da Al-Qaeda, a organização de Bin Laden, a que fez derrubar as Torres Gémeas do World Trade Center, é algo de muito preocupante. Recorrem aos suicidas para provocar danos incalculáveis. Será lícito combater o terrorismo com o terrorismo de Estado? A ONU decididamente não está à altura das circunstâncias. A invasão do Iraque foi feita porque a ONU demorou a actuar, os direitos de veto de alguns países tornam-na inoperante.



__Mas Portugal está a combater o terrorismo permitindo que sejam usadas bases suas?

__Na base das Lajes, Açores, têm passado muitos aviões da CIA carregados de prisioneiros suspeitos de serem terroristas. O problema é que tudo é feito à revelia da justiça. Podem ser acusados cidadãos que nada têm a ver com o terrorismo (como já aconteceu) e ninguém é penalizado por tais abusos. Eu não sei se Portugal (o governo) sabe ou não; pode haver um acordo tácito; julgo que o há. Mas isto é algo de muito polémico em termos jurídicos e pode descambar em perseguições e injustiças de toda a ordem.

__Mas a ONU não tem poderes?

__A ONU está paralizada e refém de muitos empecilhos. É uma espécie de figura decorativa. O mundo precisa de uma nova ordem internacional. Precisa de uma entidade supra-nacional que intervenha activamente em casos de abuso de poder flagrante, de genocídios, de falta de respeito flagrante pelos direitos humanos. Contudo em todo o lado há isso. A anarquia reina. A própria democracia é um conceito que é bastante maltratado a ponto de se poder dizer que sob a bandeira da democracia se acobertam muitas ditaduras. Mesmo no meu país e no teu, aparentemente democráticos. Os poderes económicos abastardam e corrompem os alicerces da democracia. Dizem que o Grupo Bildebergue funciona como um areópago onde se acoitam os grandes corruptores, onde se conjecturam estratégias que conduzem à asfixia da própria democracia subjugada pelo poder desses grandes grupos económico-financeiros.
__Não estarás a ser pessimista?
__Mais tarde ou mais cedo isto será ensinado nos manuais escolares. Olha o caso Watergate no meu país, em que um presidente (Nixon) foi retirado do cargo por mentir sobre uma devassa ao partido adversário (Democrata). Dois repórters do Washington Post (Carl Bernstein e Robert Woodward - sei os nomes de cor por que foi feito um filme de enorme impacto) desvendaram o mistério e destruiram toda a credibilidade do presidente. O teu governo, neste momento, é uma espécie de Nixon e Ana Gomes faz o papel dos dois jornalistas. Simplesmente agora já não se liga ao mentir, a mentira está tão institucionalizada que só quem fala verdade é que é penalizado. Ana Gomes vai ser votada ao ostracismo no seu próprio partido. A verdade é mal vista nesta caricatura de democracia. A mentira é que triunfa. George Orwell escreveu um livro que está cada vez mais actual:« O Triunfo dos Porcos!». Eu diria mais: «O Triunfo dos Mentirosos!» é que está a dar!...

__Mas então a democracia portuguesa não tinha ganho credibilidade com o tal «25 de Abril»?

__Lá isso ganhou. Mas foi sol de pouca dura. Agora, uma nova ditadura está emergindo embora com rótulo democrático: a cultura, o jornalismo, o poder local, os tráficos de influência em quase todas as esferas sensíveis da sociedade estão minando a pureza democrática. Tal como no meu país: Bush não é mais que um fantoche nas mãos dos grandes grupos económicos ligados ao armamento, ao petróleo, à banca, às construtoras...

__Será que o mundo precisa de um novo e autêntico «25 de Abril?»

Finalmente, os Ovnis!





Dia de contrastes: a tranquilidade, o sonho, a noite de terror!
O dia 24 de Junho de 2008 ficará marcado para sempre para mim e para Sandra. Tínhamos pescado e comido uma boa refeição. Passeámos na praia. Ela deu-se ao cuidado de desenhar algo de simbólico que prenunciava bonança e não tempestade. Contudo, o caír da noite trouxe uma surpresa desagradável.
Aquilo de que suspeitáramos era verdade. A ilha era um local de visita frequente de extra-terrestres! eu conto como foi:
Visitáramos um imenso largo interior onde havia três pirâmides. A nosso lado, o sempre bem disposto Elvis cantando a propósito de tudo. Ora no meu ombro ora sobre os cabelos desgrenhados de Sandra, ele parecia feliz da vida. Ela, mesmo com o pesadelo iminente do fim das refeições quentes (o isqueiro estava a esgotar a carga...) parecia feliz e saciada. Era diferente de Hollywood, era o repouso que sempre sonhara. Era o paraíso, enfim. Só fez uma pequena birra quando lhe disse que a minha paixão tinha sido uma tal Brigitte Bardot! Como não conhecia e nunca tivera com ela qualquer contacto, também não ficou ciumenta! Mas foi avisando: «Olha que eu sou pela fidelidade total!»
Entrementes, surgiu ao fundo do horizonte um objecto redondo e a grande velocidade. Parecia uma lata de goiabada gigantesca. Eu fiquei intrigado. Nem barcos nem aviões por ali, como era possível surgir aquele objecto tão estranho!
O certo é que foi descendo, descendo, e acabou por pousar junto às piràmides!
Nós, ao longe, escondidos no arvoredo, fomos apurando o olhar...
A nave pousou suavemente. Atracou mesmo em cima do poço de água que ali havia, no centro dessa praça.
Dois pequenos vultos saíram e trouxeram uma espécie de cilindro. Com muitas cerimónias e muito respeito foram colocar esse cilindro num buraco da pirâmide. Depois, cuidadosamente, deitaram umas embalagens metálicas num buraco que havia, mais distante do poço, num local mais escondido. Fizeram alguns exercícios físicos, falaram através de uns aparelhos pequenos colocados próximos das enormes orelhas e lá entraram na cápsula espacial. Sobrevoaram o local várias vezes e lá fugiram para sempre no horizonte.
Que seria aquilo?
De coração alvoroçado, fomos investigar.
O cilindro que foi introduzido na pirâmide tinha desaparecido. Mas havia um buraco na pedra. Próximo do local, escondido sob a terra, havia uma espécie de manivela. Colocámo-la no buraco e rodámos, rodámos, até que aquilo começou a ceder!
Verificámos que o cilindro era uma espécie de caixão! Ali estariam os restos mortais de algum viajante do espaço... não pudemos investigar mais pois outra nave se ia aproximando do local.
Escondemo-nos e assistimos a um espectáculo impressionante.
A nave aterrou e dois seres com aspecto nauseabundo, com farto pelo e nariz achatado colocaram outro, de outra espécie e não menos nauseabundo, em frente a uma pirâmide. Ele estava de braços atados e olhos vendados! Era uma execução!
Dispararam uma arma silenciosa e depois de o outro tombar inerte, colocaram-no num caixão cilîmdrico e meteram-no num outro buraco de outra pirâmide!
(Continua)

terça-feira, junho 24, 2008

O calendário de Sandra!

Hoje o sol brilhava ainda mais do que o habitual. Depois do mergulho matinal e de uma pescaria gratificante, enquanto ia assando num improvisado espeto as iguarias pescadas, perguntei à minha parceira de desterro a data. Ela foi expedita:

__Hoje são 24 de Junho de 2008! _ explicou-me olhando para uma correnteza de pedras que tinha alinhado junto à lagoa onde temos a cabana.

Eu olhei aquelas pedras todas e imaginei o sofrimento dela, a angústia da solidão. Agora já me tinha a mim e ao «Elvis» para tagarelar e poder rir até... quando lhe contava algumas anedotas ela mostrava aqueles dentes brancos e sedutores e dava gargalhadas sem fim!
Disse-lhe, então:

__Lá na minha terra em Portugal é dia de S. João, é uma festa onde toda a gente confraterniza e vem cantar e passear na rua durante toda a noite. Come-se sardinha assada e bebe-se vinho e cerveja até fartar!

__Vocês os portugueses são bem dispostos. Agora, com um português a presidir à União Europeia até devem sentir-se mais orgulhosos?!
__União Europeia, o que é isso?
__É uma espécie de Estados Unidos da Europa. O português Durão Barroso é o presidente!
__Não acredito Sandra! De Portugal só se fala no Eusébio e na Amália para dizer bem; e do Salazar e do Alves dos Reis para dizer mal! Será possível que tenhamos subido tanto na cotação do mundo?
__Depois da revolução dos cravos em 25 de Abril de 1974 Portugal passou a ser conhecido por outros motivos, bem melhores, por sinal. Mas ainda têm Alves dos Reis, isso têm. O actual chama-se Vale e Azevedo e foi presidente do Benfica, o clube do Eusébio, suponho eu. Vigarizou o clube a que presidia e vigarizava os clientes. Anda neste momento fugido à justiça!

Falámos sobre o S. João, sobre as quadras populares, sobre os alhos e os balões, as fogueiras e os bailes... enfim, ela delirou ao saber de tudo isto! Pediu-me até, com um sorriso largo estampado no rosto meigo e simpático:

__ Roux, faz uma quadra dedicada a mim, tendo por tema esse contexto do S. João!

Quando ela me tratava por Roux (diminuitivo de Rouxinol), com aquela voz doce e tão suave, eu não resistia. Lá alinhavei uma quadra e li-lha, primeiro em português, depois em inglês, e até em francês, pois o meu inglês não é muito fluente e às vezes tenho que recorrer ao idioma de Victor Hugo para ser mais explícito. A quadra para Sandra era muito simples:

Ó S. João tens um stock
De moças apaixonadas
Eu tenho a Sandra Bullock
A melhor das namoradas!

Quando falei em francês ela percebeu melhor e soltou uma sonora gargalhada. Não rimava, mas dizia a verdade e ela compreendeu a «essência da coisa»...

Falámos muito sobre Salazar. Eu disse-lhe que as anedotas sobre ele eram imensas e que reflectiam uma certa animosidade popular sobre a sua pessoa. Era um ditador muito ligado às coisas da Igreja e tinha nela um suporte muito importante.

Por falar em quadras, citei uma de que se falava muito na época.
O Xá da Pérsia tinha tido finalmente um filho e fez uma festa de arromba. Salazar continuava solteiro e sem soluções hereditárias à vista... Por isso o povo, com a sua sabedoria poética, fez parir a seguinte quadra:

Se uma queca lá na Pérsia
Tanta alegria veio dar
Lamentamos a inércia
Da "gaita" do Salazar!!!

Quando ela percebeu o que era uma "queca" e uma "gaita" não se conteve e riu a bandeiras despregadas... Até o Elvis entoou a sua canção preferida: «Love me tender... love me...»

segunda-feira, junho 23, 2008

«Eu sou o Elvis!»


«Nesta ilha deserta a areia é ainda mais deliciosa, mas o Elvis Presley,
é que veio mesmo a calhar!»




Os dias foram passando. Fui-me adaptando como pude ao novo habitat. Ao procurar algum barco abandonado fomos surpreendidos por uma catatua aparentemente domesticada...«Sou o Elvis», dizia ela e cantava muito bem : «Love me tender...»



Enfim, Sandra lá esqueceu as suas preocupações: nunca mais pensou nas acções de Wall Street, nem nas revistas cor-de-rosa, só desejava tomar um café e beber um licor... mas a vida na ilha deserta tem destas coisas... Não se pode ter «sol na eira e chuva no nabal»...


Quando caíu ao mar, lá no paquete de luxo onde viajava, tinha usado um nome fictício para não ser molestada por paparazzi ( era simplesmente a Bianca Gomez), daí que o seu nome não fizesse soar ainda as sirenes da comunicação social... mais remotas eram as possibilidades de virmos a ser encontrados...

__ Quem me dera ter aqui um telemóvel! __ disse ela com ar sofrido...

__O que é um telemóvel?!__ Inquiri, surpreso.
Ela, com a sua bonomia, compreendendo a minha amnésia lacunar (fiquei sem memória dos anos 70 até 2008!), lá me foi explicando tudo: telemóveis, faxes, conferências audiovisuais, CDs, etrc., etc.

Uma coisa que eu estranhava é que não se viam aviões no ceu durante o dia, mas durante a noite estranhos objectos circulavam a grande velocidade. Seriam discos voadores? A interrogação pairava no ar...

Apanhámos muito peixe com facilidade. Um esquilo caíu na armadilha improvisada e comêmo-lo com muito apetite. Eu às vezes gostaria de ter um telemóvel para encomendar um leitão lá no Pedro (será que ainda existirá em 2008?); será que ainda existe o Ponderosa? e o Galeto, em Lisboa?

Estes pensamentos faziam-me crescer água na boca. Sandra também tinha saudades de ir ao cabeleireiro, assistir a galas, de frequentar os restaurantes de Hollywood, enfim, no meio daquela ilha deserta começaram a vir ao de cima as solicitações da vida mundana, da tentação da cidade...

Ela lembrou que o isqueiro estava quase a acabar... dentro em pouco teríamos que comer a comida crua... que pesadelo, pensava eu com os meus botões... maldita ilha deserta!!!

Mas Sandra Bullock nunca perdia optimismo. Ela acrescentava até: «Vocês em Portugal têm um ditado que reza assim:´"há males que vêm por bem!", espero bem que este seja um deles. Ainda vou fazer um filme com o relato dos acontecimentos aqui passados até ao nosso achamento!»

Eu, para passar o tempo, perguntava-lhe coisas sobre os acontecimentos mais recentes. Ela contava-mne tudo sobre a Guerra do Golfo, a do Afeganistão, sobre o Iraque, as Torres Gémeas e o Bin Laden... Eu, mal podia acreditar no que ela me ia contando.
__Como épossível isso dos suicidas ter voltado? Regressámos à Idade Média!

A surpresa!!!



Sandra nadou, nadou e mostrou-me todos os recantos daquele mar paradisíaco. Os corais lindíssimos, os peixes coloridos como que convivendo connosco sem alarmes, sem preocupações de qualquer espécie. Depois, deitou-se na areia quente e olhando fixamente para mim disse:

__Há uma semana aqui sozinha, desesperada, agarrei-me às orações que já não rezava desde miúda. Pedi a Deus uma companhia, alguém que me pudesse ajudar a partilhar esta solidão imensa e a desfrutar o que de bom até poderá ter esta ilha tão bela. Vieste tu, foi uma resposta às minhas preces!

__Como é possível? Eu estava na guerra em Angola, tinha ido executar uma missão por ordem do capitão Estevens, o comandante de esquadra, lá na Base aérea número nove, em Luanda. Fui abatido por um míssil e o avião caíu tendo eu saltado em pára-quedas...

__Tu estás enganado! __ disse ela com ênfase. __ Estamos em 2008, a guerra em Angola já acabou há muitos anos. Angola é independente!
__Não é possível!!! Ainda ontem tive uma discussão com o Catalão, o sobrinho do general Simão Portugal, eu dizia que a independência de Angola era uma opção válida e uma forma de evitar o prolongamento da guerra. Ele dizia que era impossível a independência de Angola. Até nos chateámos por causa disso! Ele quase que me chamou comunista!

Sandra contou-me tudo desde o ano de 1970 até ao ano de 2008. Eu quase nem acreditei! A revolução de Abril, o fim de guerra do Vietename, a guerra do Golfo, a guerra do Iraque, toda uma série de acontecimentos que eu desconhecia por completo!

Disse-me que tinha sido realizadora de cinema e que adoraria contar esta aventura que estava a partilhar comigo. Pediu-me dados sobre a guerra de Angola, sobre as motivações, as dúvidas, os conflitos geracionais, enfim, todo um conjunto de dados importantes para se enquadrar melhor naquele cenário bélico.
Na medida das minhas possibilidades fui-lhe fornecendo a minha perspectiva. A posição do general Norton de Matos, o papel de Manuel Alegre, a censura e a PIDE/DGS actuando como guarda pretoriana do regime. O papel ambíguo dos EUA apoiando Portugal na ONU mas dando também apoio bélico aos movimentos de libertação (UNITA de Savimbi e FNLA de Holden Roberto). Ela não ficou espantada. Contou-me que situação igual se tinha passado com a guerra Irão - Iraque em que os EUA apoiaram o Iraque, mas, por questões comerciais, também apoiaram o Irão...
Passámos noites a conversar, a desfrutar aquele calor tórrido mas retemperador. Ela era fogosa e tagarela, eu, mais comedido, mais calmo, ia a reboque das sua investidas... Tive que a compensar dos longos momentos de solidão que foi obrigada a passar antes da minha chegada...
Construímos um abrigo feito de folhas de palmeira e troncos de bambu. As lianas foram usadas como fio de ligação, à falta de pregos.

Nos intervalos das conversas nadávamos, nadávamos. Peixes em abundância, a fome nunca foi problema. A pescar era o nosso passatempo favorito. Às vezes, para me animar, ela sorria e dizia com ar voluptuoso: «Tu Tarzan, mim Jane!»
Eu não sorria. Estava à espera de ser considerado desertor da guerra colonial. De ter uma brigada da PIDE a entrar por aquele imenso areal e dizer assim: «Está preso por ter desertado!»
Mas, como ela afiançava que já estávamos em 2008...

(Continua)

O pesadelo e... a cura!


Sandra, a estrela de Hollywood, curou-me completamente. Vou seguir os seus sábios conselhos...


Aconteceu, e foi algo de inexplicável. Nós, os militares que estivemos no ultramar, temos ou podemos ter a chamada psicose de guerra. É algo de devastador. Cria mecanismos psíquicos terríveis. Tudo começou quando utilizei uma máquina de cortar silvas; daquelas com disco e com motor. Ao fim de alguns dias comecei a ter pesadelos. Via-me de metralhadora empunhada e capaz de matar quem aparecesse pela frente. Era um Rambo completamente enlouquecido.
Fui consultar um psiquiatra. Este, experiente na matéria, já com provas dadas neste domínio específico, além de medicação apropriada, deu-me algumas dicas para ultrapassar a crise.
Remédio santo. Deixei de ter pesadelos e passei a ter sonhos cor-de-rosa... A cura foi milagrosa...

Num desses sonhos apareceu-me a artista cinematográfica Sandra Bullock numa ilha deserta. Foramos parar lá depois de um naufrágio. Não, não fora o Titanic. Tinha sido algo mais surrealista.
Ela caíra de um paquete de luxo, estando em férias, quando se debruçara imprudentemente...
Eu saltara de pára-quedas depois de um avião ter sido abatido. Sem fósforos, sem alimentos, sem nenhum suporte logístico. Apareceu-me ela, sozinha, completamente esfarrapada, carente.
Ela tinha fósforos, tinha um refúgio, tinha uma rede para pescar. Foi o meu anjo da guarda. Perguntou-me de onde vinha. «Sei lá, estava na guerra e fui abatido», respondi-lhe de chofre.
«Sabes nadar?!» perguntou-me com ar ansioso.

«Desde os sete anos», respondi com entusiasmo. «Então anda-me acompanhar!» pegando-me na mão, apontou o mar, de um azul tão cálido, de um turqueza tão ameno, que fazia crescer água na boca...



(Continua)

sábado, junho 21, 2008

Um Homem que não ajoelhou a Salazar



Tal como D. António Ferreira Gomes, bispo de Porto, e durante muitos anos exilado político, que nunca vergou perante o ditador Salazar, Aristides Sousa Mendes, então cônsul de Portugal em Bordéus (a 16 de Junho de 1940 tomou a decisão de passar 30.000 vistos a judeus perseguidos pelo nazismo), sabia que enfrentava uma tempestade política. Ao desobedecer às ordens de Salazar arriscava (como veio a acontecer) a sua carreira diplomática e o seu futuro profissional (foi até impedido de exercer advocacia), mas, indiferente ao risco, colocando acima de tudo a sua consciência, a sua integridade, optou pela ruptura, pelo afrontamento.

Não foi fácil ser reabilitado (a título póstumo) pois o seu acto tinha contornos que poderiam ser considerados lesivos para a economia nacional, para o interesse nacional, e deveria ser punido exemplarmente, para se evitarem situações similares. Contudo, o carácter excepcional desta conduta, num contexto de demência anti-semita, foi enaltecido e louvado, ainda que muito à posteriori...

A ele, ao seu exemplo humanitário, a nossa homenagem. O nosso respeito pela coragem, mesmo sabendo que iria sofrer danos irreparáveis. Aristides Sousa Mendes, o nosso Schindler, o tal da «lista» que o cinema imortalizou...



Quando imperava o terror
e toda a gente vergava
ao jugo do ditador
ele ousou ser um «traidor»,
Salazar desafiava.



Ser vertical é servir
a causa da consciência,
ao ódio nunca anuír,
saber sempre transgredir
quando impera a prepotência.


A suástica ditava
a morte ao povo judeu,
Aristides conspirava,
ordens vis não respeitava,
então, desobedeceu.



Não vergou. Foi castigado,
Salazar não perdoou,
ao ostracismo votado,
perseguido e molestado
não fugiu nem ajoelhou.



Seu gesto de rebeldia
a gente jamais esquece
a coragem e a ousadia
merecem a simpatia
do mundo, que lhe agradece.

A Família JUNQUEIRA, no Brasil

É uma das maiores famílias da nação brasileira. Teve a sua origem em João Francisco Junqueira, nascido em São Simão da Junqueira a 14 de Novembro de 1727. Emigrou para terras de Vera Cruz em 1746.

A esta Família que tem a sua génese na minha terra natal, a minha modesta homenagem com este poema.




A SAGA DA FAMÍLIA JUNQUEIRA





No Brasil se enraizou
esta Família Junqueira,
cresceu e frutificou
todo o mundo cativou
e se expandiu, altaneira,
levando a lusa mensagem
a terras de Vera Cruz,
uma lição de coragem
desta gente de linhagem
que nos encanta e seduz!






Junqueira se espraia então
pelo Brasil inteirinho
da capital ao sertão
sangue puro, sangue são,
como se fora bom vinho,
desta cepa de Camões
vinho de luso sabor,
que faz vibrar corações
congregando gerações
na senda da Paz e Amor!

sexta-feira, junho 20, 2008

Milagre! A Senhora falou!!!

A Senhora de Caravaggio mostra o seu azedume perante Scolari...


Mal chegou ao hotel recolheu-se em frente da imagem da Senhora de Caravaggio e desabafou assim:

«Senhora, como foi possível teres-me desamparado nesta hora difícil? Tanto tenho implorado, tanto tenho pedido a Vossa protecção e aconteceu aquilo? Uma equipa medíocre, só meia-bola-e-força, só altura e força bruta, a ganhar aos meus mininos, aos meus artistas, aos meus geniozinhos? Como foi possível o árbitro não ter visto aquele empurrão do Balack antes do terceiro golo, como foi possível o João Moutinho ter metido a coxa quando era de meter a cabeça, à peixe, para um golo sensacional? Como foi possível o Pepe ter metido a nuca e levado a bola a subir por cima da trave quando era tão simples fazer como eu lhe ensinei: uma testada de cima para baixo? Como foi possível o Ricardo ter saído daquela forma amalucada, com os olhos fechados, meio tonto, quando poderia estar quieto entre os postes e defender nas calmas? Onde estavas Vós, Virgem Santa?!»


As lamúrias, quase sempre sem resposta, desta vez fizeram com que a Senhora levantasse a cabeça e dissesse alto e bom som:

«Scolari já te dei muitas alegrias, muitas vitórias imerecidas, já te fiz muitos favores. Arranjei-te aquele contrato milionário com o Chelsea, tiveste contratos publicitários com diversos bancos, mordomias e sinecuras sem conta, ainda queres mais?! Tudo tem o seu limite. Basta de pedinchar, basta de te pendurares nas asas da minha prodigalidade. Olha, agora atendi o pedido do papa, que, coitado, quer aumentar a popularidade da religião católica na Alemanha onde os protestantes imperam. Ele acha que se a Alemanha ganhar o euro, a religião católica poderá ter
um novo élan, uma nova oportunidade, pelo menos foi o que me pediu. Fui eu que tolhi a visão ao Ricardo, fui eu que atrapalhei o Pepe e o João Moutinho quando o mais difícil era não marcar. Já estou farta de te dar empurrões para a fama e para a glória.»

Então, de repente, senti um empurrão e caí abaixo da cama. Era a minha esposa que acabara de ter mais um pesadelo. Esqueceu-se de tomar os soporíferos...

O Papa rende-se ao encanto de Portugal!


Meu caro rouxinol:
Antes de mais, os meus parabéns pela exibição de Portugal: foi pena ver perder uma equipa daquelas, o perfume do futebol na mais pura expressão artística!
A «minha» Alemanha não ganhou. Quem perdeu foi Scolari, que não respeitou as tuas instruções!
Já aquando do jogo com a Grécia aconteceu o mesmo: tu bem o avisaste mas o homem é teimoso. A perder por 3-1 e não colocou dois pontas-de-lança, manteve o mesmo 4-3-3 timorato e enfadonho.
Os avisos que tu fizeste ao guarda-redes (item 1 do teu articulado a Scolari) foram premonitórios: saír em falso duas vezes (no segundo e no terceiro golos) foi mau de mais para um guarda-redes de uma equipa como Portugal.
É incrível como com uma exibição tão pobrezinha a Alemanha conseguiu neutralizar os artistas portugueses! não, não foi a senhora de Caravaggio que falhou, foi Scolari!!!
Até os meus cabelos se puseram em pé!!!
Scolari não arrisca, é a mesma toada quer esteja a perder quer esteja a ganhar, aquele esquema táctico rígido e estereotipado nem com os brilhantismos individuais de alguns artistas da bola (reconheço que os portugueses o são, muito mais que os alemães), colhe resultados significativos.
Mas não fui eu, com a minha influência nas questões religiosas que contribuí para a «nossa» vitória, isso posso garantir! Foi Portugal que perdeu e não a Alemanha que ganhou!
Não, não sou especialista na matéria, mas sinceramente a Alemanha não ganhará à Holanda nem que se pinte de ouro!!!
Contigo ao leme, rouxinol, a coisa fiaria mais fino para «nós» alemães, é claro. Mas assim, com este espírito medricas, Portugal não podia ir mais longe. Mandai vir o «faraó» lá do Egipto, ou isto não ata nem desata!
Resta-me um consolo: houve desportivismno de parte a parte! Parabéns por isso, meu caro!

Iberismo salutar




Esta jangada ibérica zarpando
Rumo ao porto de abrigo europeísta
Nova afectividade vai ganhando
Sob o impulso do vento futurista.



Não mais Aljubarrota ou Tordesilhas,
Não mais vis chauvinismos do passado,
Não mais impérios, nem reles partilhas,
Partilhemos progresso lado a lado.



Iberismo sadio, com respeito,
De laços ancestrais, igual matriz,
Dois rios caudalosos num só leito...



Saibamos prosseguir rumo feliz,
Cada qual ao seu ritmo, ao seu jeito,
Sendo o sucesso a vera directriz.

quinta-feira, junho 19, 2008

José Régio, à janela da saudade.


Entre Deus e o diabo poetaste
Genial criador vila-condense;
Ambivalente mar tu navegaste
E ousaste remar contra a corrente.
Poesia, romance, até ensaio
Tudo tu cultivaste com mestria;
Caíste, fulminante como um raio
Iluminaste a noite-hipocrisia.
Hoje, 'inda fazes falta, bem sabemos,
Faz falta a tua luz, a claridade,
Do teu sol-lucidez, sol da verdade.
No teu olhar sereno nós (re)lemos
Tua mensagem viva, e podemos
Contemplar o mar nobre da saudade...

Nasceu um santo: S. João do Apito Dourado!


S. João, ó santo amado,
Faz um favor à gente:
Vê se o «Apito dourado«
Acaba rapidamente.
Processos e mais processos
Mais ou menos virtuais
Andam todos já possessos
Por diabos-tribunais...
Há corrupção, nós sabemos,
Mas provas, dizem que não!
Mesmo se nós as obtemos
«Indícios» lhes chamarão.
Chamar «Apito final»
Nem ao demo lembrará
É algo paradoxal
Pois jamais terminará!
Enquanto o pau vai e vem
Muitas costas vão folgando,
A justiça anda refém
De quem a vai protelando.
S. João apita lá
Com teu apito sagrado,
Toda a gente acatará
Veredicto de bom grado...

quarta-feira, junho 18, 2008

O prometido é devido...

«Meu caro rouxinol, nem imaginas como as tuas dicas têm sido fundamentais para as nossas vitórias. Vou levar-te para o Chelsea pois o teu espírito de observação é uma mais-valia!»
Caro Scolari:
Com o devido respeito, há coisas que ainda merecem algum reparo.
Atenção, pois ao que segue:
1- Ricardo não pode socar bolas para a frente mas sim para os lados e para bem longe... Nos «cantos» não deve saír em falso, quando saír é para tocar na bola senão mais vale ficar entre os postes...
2- Quando Pepe avançar para ir à frente, alguém deve ficar a fazer a compensação: Petit, talvez...
3- Os cartões vermelhos podem ser uma grande surpresa: Paulo Fetrreira e Petit, sobretudo estes, que se cuidem...
4- A Alemanha convida ao afunilamento, há que refutar o «convite» abrindo pelas alas e indo à linha de fundo centrar atrasado...
5- Há que optar preferencialmente pelos automatismos (passa- e- repassa) no ataque, em detrimento do esforço individual, tantas vezes inglório...
6- Há quem abuse dos remates de meia-distância sem atingirem o alvo e destruindo jogadas de ataque (Petit, sobretudo tem a «alça» muito elevada...) quando o seu uso deve ser comedido.
7-Atenção aos remates de meia-distância de Balack, há que usar uma «cortina» eficaz...
8-A defesa alemã gosta de «adormecer» os adversários; há que a fazer saír da «toca» convidando-a a avançar no terreno e desguarnecendo os flancos, sobretudo...
9- Se estivermos a ganhar (oxalá isso possa acontecer cedo) há que fazer circular a bola para o desgaste psicológico fazendo vir ao de cima o nosso domínio de bola e a nossa matreitrice...
10- Se estivermos a perder (oxalá não aconteça) há que ter a coragem de adoptar dois pontas-de-lança pois um só, naquela floresta de pernas, é um martírio inútil.
11- Muita atenção às «bocas»: os árbitros agora começam também a sentir o «peso institucional»!... Há que ter comedimento pois uma expulsão pode ser a «morte do artista»...
12- Cuidado com o abuso do passe-longo. Deve ser usado só em determinadas circunstâncias e com grau de eficácia garantido ou muito provável, senão, mais vale o passe curto e certeiro, mas eficaz e garantindo a posse de bola...

terça-feira, junho 17, 2008

União Europeia: um elefante branco?!

O recente «Não!» da Irlanda vem chamar a atenção para a falta de agilidade das instituições europeias e para todo um conglomerado de factores que poderão dar azo a bloqueios e travões de toda a ordem.

Na Irlanda (e é crível que neste momento em Portugal se houvesse referendo ele seria negativo) há uma predisposição para encarar o Tratado de Lisboa como algo de maléfico e incompatível com a idiossincrasia indígena. Questões como o aborto, aparentemente irrelevantes, poderão estar na génese do «Não», bem assim como o actual panorama no tocante a subida de preço dos combustíveis e de bens alimentares.

Como descalçar esta «bota»?

De duas uma: ou a Irlanda faz novo referendo e vota «Sim» ou afasta-se da eurolândia.

Até lá há que meditar muito... Será que se vai esperar muito por uma decisão?!

segunda-feira, junho 16, 2008

António Vieira, um remador contra a corrente.



O padre António Vieira não foi apenas um grande escritor, um exímio cultor das letras, um burilador do verbo na mais elevada expressão. Foi também, e acima de tudo, um combatente da cidadania, um cultor dos valores cívicos, um expoente da libertação. Isso acarretou-lhe dissabores dentre os colonos exploradores da mão-de-obra escrava, isso trouxe-lhe perseguições políticas. A Inquisição, mais ao serviço de poderes terrenos do que da causa da fé, saíu-lhe ao encalço e procurou exterminá-lo. Não o conseguiu totalmente, mas tentou amordaçá-lo.

Hoje em dia quando vemos alguma Igreja (nem toda, há que o reconhecer) apostada em prestar culto aos poderes políticos (o caso da Madeira ultrapassa o mero servilismo e atinge o patamar da obscenidade), há que prestar homenagem a este Homem que soube ser firme e erecto num tempo em que custava bem caro, por vezes a própria vida.


ANTÓNIO VIEIRA UM SÍMBOLO DE INDEPENDÊNCIA CÌVICA




Olhando com olhar sério o passado
Mergulhando na era esclavagista
Vieira foi proscrito, censurado,
Mal-amado por ser um futurista.



Quem ousa ver futuro no presente,
Plasmando novos rumos no pensar,
Quem lança com coragem a semente
Futurista, um risco vai arcar.



E Vieira enfrentou a Inquisição
Braço indigno da Igreja prepotente,
Pecou por caminhar no tempo à frente.



Hoje, somos Vieira em embrião,
Enfrentando esta Igreja-Situação
Incapaz de lutar contra a corrente.

A Era Fernando Pessoa começou há 120 anos...



Vem ver agora o meu país que já
não tem Camões nem Índias para achar
só tem Pessoa e o império que não há
sentado à mesa como em alto mar.



A viagem que faz é só por dentro
e escreviver-se a única aventura.
No pensamento é que lhe dá o vento
ele é sozinho uma literatura.


Eis a vida vidinha cega e surda
ditadura do não só do pouco.
Ser homem (diz Pessoa) é ser-se louco.


Heteronimismo de si na hora absurda
viajando no sentir escreve sentado.
E é Pessoa: "futuro do passado".


Nota: Homenagem de Manuel Alegre ao poeta dos heterónimos.

domingo, junho 15, 2008

Inês de Portugal!


Dos olhos corre a água do Mondego
os cabelos parecem os choupais.
Inês! Inês! Rainha sem sossego
dum rei que por amor não pode mais.
Amor imenso que também é cego
amor que torna os homens imortais.
Inês! Inês! distância a que não chego
morta tão cedo por viver demais.
Os teus gestos são verdes, os teus braços
são gaivotas poisadas no regaço
dum mar azul turqueza intemporal.
As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.
Nota: homenagem de José Carlos Ary dos Santos a Inês de Castro.

sábado, junho 14, 2008

Eça de Queiroz sempre actual...

«Meus caros, sei que nunca fui um politicamente correcto. Grangeei antipatias, azedumes sem conta; no meu tempo era a "choldra" que mandava, agora chamam-lhe "sistema"!...
Para minorar os seus efeitos (não acredito na erradicação definitiva), a receita é a mesma de sempre: os políticos e as fraldas devem mudar-se com frequência e a motivação é a mesma..."»

Petróleo, novo-deus no horizonte?!


Petróleo, porque sobes sem parar
De forma brutal, irreversível?!
O povo tu deves respeitar
Mantendo um preço baixo e acessível.
És um deus caprichoso e prepotente
És droga imprescindível no momento,
Provocas dependência em toda a gente
Devemos procurar um... tratamento...
Criar alternativas mais saudáveis
Mais baratas, menos poluentes,
Adoptar energias mais fiáveis
É das prioridades mais urgentes.
É preciso erigir um novo mundo
Ecologicamente mais saudável,
Assim, é o descalabro mais profundo,
E o mundo ficará ingovernável!

quinta-feira, junho 12, 2008

Portugal:alicerces do passado, horizontes do f uturo

Portugal país do sol
de gastronomia boa
do castelo de Almourol
das colinas de Lisboa
do Marão e do Gerês
da Madeira e dos Açores
Portugal será talvez
memorial de valores
santuário de heroísmos
um retiro de fadistas
onde imperam fatalismos
sopram ventos saudosistas
mas há crença no futuro
há crianças sorridentes
que são Portugal mais puro
promessas tão refulgentes
de progresso inovador
de sã criatividade
afã regenerador
humana maturidade
capaz de nos elevar
ao sonho da perfeição
ao esperado patamar
digno da nossa ambição
um Portugal progressivo
respirando liberdade
um Portugal construtivo
com asas-modernidade!

Mãe

Esta vida,este poema,
que me ensinaste a escrever
só terá valido a pena
se te souber merecer.


No teu regaço aprendi
a palavra humildade
por isso sempre fugi
da ostentação da vaidade.


No teu olhar há bonança
e brilha a força da fé
cais onde se esconde a esperança
ao abrigo da maré.


O sentimento mais nobre
que de ti, por certo, herdei
foi tratar o rico e o pobre
como a ti sempre tratei.

quarta-feira, junho 11, 2008

Entrevista com Camões...


«Ó rouxinol, eu sou zarolho mas vejo melhor que alguns que se julgam luminárias do saber e da cultura...»
R. de B. - Meu caro Camões, que tem a dizer sobre este dia 10 de Junho?
Camões- Tenho-te a dizer que até me sinto mal com tal pompa. O país a atravessar uma crise, as pessoas em dificuldades, e tanta conversa de treta até me repugna...
RB.- Mas não achais bem?
Camões- Olha, eu fui tão mal tratado em vida, fui ostracizado, humilhado, tratado com se de um marginal anti-social. A igreja achava-me um libertino, não compreendia aquela minha referência aos deuses, o poder achava-me um pobre coitado. De facto eu não acreditava nos deuses, mas quis pô-los na minha obra por uma questão de moda literária, de grandiloquência, de respeito para com as civilizações que me precederam...
R.B- - Então para si Vénus e Marte são pura imaginação?
Camões_ Claro que sim, eu nunca acreditei neles. Dava jeito incluí-los por modismo literário puro e simples, nada mais. Já fui acusado de ser apologista do colonialismo português, logo após o 25 de Abril, e se calhar com alguma dose de razão. Eu nunca fui capaz de analisar em profundidade a vertente humana. Era um pouco maniqueísta: Jesus era o Bem, Mafoma era o Mal. Nunca tive uma visão muito profunda de conceitos como escravatura, exploração do homem pelo homem, enfim, era comum nessa época ser-se assim...
RB- Hoje sente-se modificado?
C- Hoje não escreveria um livro como «Os Lusíadas». Acharia pura perda de tempo. Talvez me aventurasse a fazer um filme erótico sobre «A ilha dos amores»...
RB - Então porquê?
C- Porque aquilo que quis dizer nesse tempo não me deixaram. Tive que cortar vários capítulos, corrigir cenas mais ousadas, retirar aquilo que achava mais digno de passar para a posteridade: a essência feminina no esplendor cultural, a sensualidade como mola propulsora da cultura e da civilização! A censura era feroz, medonha, castradora. Nem sei como consegui fazer passar aquele episódio da «Ilha dos amores», talvez tenha sido influência do Rei... que também era dado às musas...
RB - Hoje acha que teria problemas com a censura?
C- Talvez, anda para aí uma nova seita de detentores da moral e da verdade pura que mais parecem Torquemadas da nova vaga. Saramago sabe do que falo, pois já sentiu na própria pele a repressão censória...
RB- Mas estamos em tempo de liberdade, de respeito pelos Direitos Humanos, de respeito pela diferença...
C- Não me parece muito. Veja o que se passa no Zimbawe, na China (Tibete), em Myanmar, em Darfur. Cá em Portugal ponha os olhos na Madeira, em Gondomar, em Felgueiras... enfim, há pequenas bolsas totalitárias que envergonham o 25 de Abril...
R.B- Sois assim tão devoto do 25 de Abril?
C - Eu sou pela liberdade, pelo respeito pela diferença, sou adepto de uma visão plural em termos ideológicos, em termos culturais e religiosos. Mas sinceramente acho que uma nova inquisição está latente em muitos obstáculos que amiúde vão surgindo à livre expressão do pensamento. O islamismo, então, retrocedeu, aviltou-se, degenerou. Tenho o meu nome nalgumas ruas do norte de África, mas, sinceramente não me revejo no pensar dominante, nos teocracismos belicistas que por aí vão eclodindo...
R.B. Sois contra Marte?
C- Marte, o Marte puro do meu tempo já não existe. Agora há mercenários interessados em vender armamento servindo-se das religiões para atiçarem ódios repugnantes. Mercenários há-os na China e na América, em Moscovo ou em Berlim, há-os para todos os gostos e para todas as sensibilidades... Eu hoje seria um pacifista atento e esclarecido. Não sou pela guerra mas pela paz entre os povos. Hoje escreveria sobre a fraternidade universal com Cristo a idealizou, e não como a Opus Dei ou a Inquisição a transformaram. A Igreja deverá ser um fio condutor capaz de regenerar esta sociedade hipócrita. Mas sinceramente também ela está cheia de compromissos com os poderes que talvez esteja incapaz de cumprir essa missão. Talvez os pedagogos e os intelectuais livres possam substituír esse múnus benfazejo...
R.B.- Uma mensagemn para o mundo, quereis deixar?
Camões- Talvez o mundo não precise de mensagens. É preciso é começar a repensar esta hipocrisia reunida à volta da ONU e optar por outra coisa, mais interventiva, mais eficaz, mais capaz de erradicar os belicismos tolos que vão dando cabo da civilização actual...

segunda-feira, junho 09, 2008

Camões, as musas e os tempos...

«Sou filha de Nereu e de Dóris vivo no fundo do oceano, venho à superfície para incendiar paixões, inspirar os vates, alimentar a chama do sonho e da beleza. O estro poético precisa de mim, sou o combustível, que aliado ao comburente inspiração provoca a ignição e deflagra paixões».
«Nós os poetas vivemos uma relação biunívoca com as ninfas. Há uma interacção dialéctica permanente entre o amante e o objecto amado. Tágides ou nereides (1) com o seu sortilégio e o seu fascínio lá andam à nossa volta como borboletas entontecidas. Sempre foi assim e assim será. Vede esse poeta dos relvados (Cristiano Ronaldo) a criar sonetos perfeitos, odes magníficas, hinos épicos de galvanização nacional... lá estão as nereides com a sua galhardia a fazer atiçar ainda mais a tocha da genialidade.»
Todo o universo é feito de mudança
A vida é permanente convulsão
Novos tempos o tempo já alcança
O presente é passado... em embrião...



Às ninfas quero e voto o meu afecto
Tantas nereides enchem o meu ser,
Meu ego marciano está repleto
De tágides, de Vénus, podem crer!


Mas Portugal me inflama o coração
Me veste de coragem e moral,
A alma carregada de emoção!



Ninfas, nereides, «doping» sem igual,
Frenesim, pundonor, motivação,
Enfim, todo o esplendor de Portugal!!!




1) Tágides, ninfas do Tejo; nereides, ninfas do oceano, filhas de Nereu e de Dóris.

sábado, junho 07, 2008

Ó Senhora de Caravaggio!!!

«Rouxinol, deixa-te de beatices, a Senhora de Caravaggio sabe muito bem que a Alemanha é o coração da Europa! Nós, alemães, seremos vencedores, graças à minha influência, ao meu carisma, ao meu empenho ecuménico»



De Caravaggio, Senhora,
Ó Excelsa Criatura!
O povo crente te implora
Orações belas decora
Reza com fé, com fervura!


Será fervura demais?!
Tenho medo do fracasso
Vós, que por nós bem cuidais,
Senhora, vede os jornais:
Só triunfalismo crasso!!!


Vão flasfemando p'raí
Que «até Deus é português!»
Tal loucura jamais vi,
Deus dirá de Si para Si:
«Imbecil embriaguês!»


É um escape o futebol!
A crise nos mata e esfola!
Governo é conversa mole
Julga que nos tapa o sol
Com a «peneira» da bola!!!


terça-feira, junho 03, 2008

Petróleo a duzentos dólares o barril...

Imagine-se (por hipotese académica) que fruto da espiral especulativa e estimulado por outros factores (de feição política) o petróleo chega aos duzentos dólares o barril.

Vamos continuar a dizer: é o mercado! há que aguentar!

Imagine-se os pescadores condicionados por tantos factores aleatórios (estado do tempo, abundância ou escassez de peixe) a serem ainda mais fustigados pela subida em flecha deste factor de produção. Os salários, os juros, ainda vá que não vá, lá vão oscilando adentro de parâmetros mais ou menos racionais, contudo o petróleo é algo de incontrolável, de imprevisível, de mirabolante.

Há que pensar nesta problemática em termos europeus. A Europa tem que encarar a situação como se de uma catástrofe, de uma calamidade se tratasse. Há factores que de tão imponderáveis, de tão aleatórios, de tão aberrantes, que só uma solução de emergência e de excepcionalidade é admissível.

Dizer-se que «é o mercado a funcionar» é algo de redutor, de pouco profundo, de ridículo.
Há que encarar a sério e de forma excepcional esta situação. Mesmo a descida do imposto sobre os produtos petrolíferos poderá não ser o único expediente; a Europa terá que encarar esta situação de forma extrordinária e pragmática. Exige-o o mais elementar sentimento europeista.

domingo, junho 01, 2008

A ONU e o direito de veto.

Uma das causas de um belicismo descontrolado é o direito de veto exercido por alguns países na ONU. De facto, ao usarem esse direito, alguns países poderosos (e fornecedores de armamento) podem lesar interesses humanitários legítimos e evidentes para salvaguardarem os seus negócios armamentistas.

Vimos ainda agora em Nyanmar a China usar esse direito para impedir a entrada de forças humanitárias aquando da catástrofe recente. No Zimbawe, ao que vão noticiando os jornais, a China está a fornecer armamento que visará (tudo o indica) intimidar a oposição na segunda volta das eleições presidenciais perdidas por Robert Mugabe, dando azo a que, se for necessária uma intervenção humanitária (se a situação degenerar) talvez a China use o seu direito de veto para proteger o aliado.

Com o Iraque, a Rússia usou esse direito, gerando situações pouco transparentes e quase «legitimando» a invasão por parte dos americanos, à revelia do direito internacional.

A continuar assim, o direito de veto torna-se um factor de belicismo e de falta de democraticidade notório. Há que substituír este mecanismo sob pena de continuarem as atrocidades perpetradas pelos vendedores de armamentos.

A SENHORA DA HORA!


«Eu, a Senhora da Hora?! Por amor de Deus, rouxinol, eu espero ser a Senhora da Década, não sou um foguete entontecido como foi o Dr Menezes ou um cometa cor-de-rosa como foi aqui o D. Juan, Santana
Minha Senhora da Hora
Perdei comigo um minuto:
Há que agir já, sem demora,
Pois o tempo é diminuto!
Há cicatrizes demais
Bem difíceis de curar
Democratas-sociais,
Párem de se guerrear!
Uns, são arqui-elitistas,
Ou delfins do baronato,
Outros, são rascas basistas
Sem nível para o... estrelato!
Minha Senhora da Hora
As hostes terá de unir!
Quando a anarquia vigora
Tudo começa a ruír!...
Não pertenço a essa guerra,
Tenho uma visão mais sã:
Há que pôr os pés na terra...
Ou ela... vos cobrirá!...